Reflexos
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N° 006

[Sommaire du numéro]

 

Aline BAZENGA

Variação em construções possessivas pré-nominais do português: um estudo sobre os usos de falantes do Funchal (Ilha da Madeira, Portugal)

Résumé

Dans ce travail, nous analyserons la variation dans l’utilisation de l’article défini (présence vs absence) avec des possessifs pré-nominaux. Il s’agit d’un phénomène largement étudié dans le contexte des langues romanes et du portugais. Ayant pour objet la variété du portugais parlé à Funchal (île de Madère), cette étude analyse les données produites par 12 madériens stratifiées selon les variables sexe, âge et niveau de scolarité, retirées du Corpus Sociolinguistique de Funchal (CSF). Grâce à une approche sociolinguistique quantitative de la variation, les résultats confirment les observations de la littérature existante, c’est-à-dire, l’usage de la variante non standard (sans l’article) par des locuteurs urbains de Madère et cela presque exclusivement dans le contexte où le possessif au singulier est suivi d’un nom de parenté. Dans ce contexte, la présence /absence de l’article défini avec le possessif pré-nominal est conditionnée par un type de règle variable dans la grammaire de certains locuteurs madériens, notamment ceux du sexe masculin, peu scolarisés et âgés de plus de 55 ans.

Abstract

In this study, we intend to analyze the variation in the use of definite articles (presence vs. absence) with prenominal possessives, a phenomenon widely studied in the context of Romance languages and of the varieties of Portuguese. Focusing on the variety of Portuguese spoken in Funchal (Madeira Island), this study analyzes the data provided by 12 informants, stratified according to sex, age and level of schooling. Data was taken from the Sociolinguistic Corpus of Funchal (CSF). Through a quantitative sociolinguistic approach to variation, the results confirm the existing literature. That is to say, the use of the non-standard variant (without the article) by urban Madeiran speakers occurs almost exclusively when possessive construction includes a kinship name, especially in its singular form. In this context, the use of the definite article with prenominal possessives can be considered as being subject to a variable rule in the grammar of some Madeiran speakers (mostly poorly educated male speakers over 56 years of age).

Resumo

Neste trabalho, pretende-se analisar a variação no uso de artigos definidos (presença vs. ausência) diante de possessivos pré-nominais, um fenómeno amplamente estudado no âmbito das línguas românicas e das variedades do português. Incidindo sobre a variedade do português falado no Funchal (Ilha da Madeira), este estuda analisa os dados produzidos por 12 informantes, estratificados de acordo com o sexo, a idade e a escolaridade do informante, e retirados do Corpus Sociolinguístico do Funchal (CSF). Através de uma abordagem sociolinguística quantitativa da variação, os resultados confirmam a literatura existente: o uso da variante não-padrão (sem artigo) por falantes madeirenses urbanos quase exclusivamente quando o possessivo é seguido de um nome de parentesco, sobretudo na sua forma singular. Neste contexto, o uso do artigo definido com possessivo pré-nominal está sujeito a uma regra variável na gramática de alguns falantes madeirenses, sobretudo os que têm mais de 56 anos, do sexo masculino e pouco escolarizados.

Texte intégral

I. Introdução

1Nesta investigação, pretende-se estudar os sintagmas possessivos pré-nominais (doravante PPN) numa variedade regional do Português Europeu (PE). A variedade selecionada integra-se no grupo de dialetos insulares do PE, em concreto, a variedade do português falado no Funchal, capital da Ilha da Madeira, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome (Figura 1).

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Figura 1. Localização do arquipélago da Madeira (Portugal).

2Procura-se saber se, nesta variedade urbana e insular, o uso do PPN com artigo definido é categórico, como acontece para a maioria dos falantes do PE residentes em Portugal continental ou se, pelo contrário, este uso é variável, e se os falantes madeirenses mantêm na sua gramática a possibilidade de usar os possessivos sem artigo definido a anteceder.

3Para a concretização deste estudo, partiu-se, numa fase preliminar, do conhecimento existente sobre este fenómeno linguístico tanto no quadro das línguas românicas, do qual faz parte o português, como dos muitos estudos já realizados no âmbito do português e das suas variedades, em particular, as europeias e brasileiras. Posteriormente, o processo de recolha e de análise de dados produzidos por falantes madeirenses do Funchal foi realizado tendo em conta os fundamentos e procedimentos metodológicos preconizados pela Teoria da Variação em Sociolinguística Variacionista (Labov 2003). A análise quantitativa foi executada com recurso ao software GoldvarbX (Tagliamonte, Sankoff e Smith 2005).

4Este artigo está organizado em duas partes: na primeira, pretende-se elaborar uma muito breve síntese da literatura dedicada à análise da variação no uso do artigo definido diante de PPNs; a segunda parte, a anteceder as considerações finais e as referências bibliográficas, está dedicada à descrição da investigação realizada com dados provenientes de falantes madeirenses, nas suas distintas fases, metodológica e de análise dos resultados.

II. Presença/ausência do artigo definido com o possessivo prenominal

5Nesta secção, a revisão da literatura encontra-se estruturada em dois pontos. Num primeiro momento, serão apresentados alguns trabalhos que estudam o fenómeno variável, objeto deste estudo, nas línguas românicas; este ponto será seguido por uma também muito breve síntese sobre as principais questões mencionadas em trabalhos que têm por foco o português e as suas variedades (europeia e brasileira).

1. Línguas Românicas

6O sistema dos possessivos nas línguas românicas é caracterizado atualmente por uma grande complexidade e diversidade. Para esta situação contribuem vários fatores de ordem linguística; entre outras, a possibilidade do possessivo se encontrar à esquerda ou à direita do nome no SN, a sua coocorrência com um artigo definido ou um artigo indefinido.

7O foco deste trabalho é a variação marcada pela possibilidade do possessivo se combinar com um artigo definido [artigo definido + possessivo + substantivo]) ou não ([Ø + possessivo + substantivo]). Os exemplos dados em (1) ilustram este fenómeno variável e a distribuição das suas variantes nas línguas românicas. No francês e no espanhol, nas suas variedades padrão, a variante sem artigo, ilustrada em (1a.), é categórica, sendo o possessivo pré-nominal interpretado neste contexto como um determinante (Van Peteghem 2012). O argumento a favor desta hipótese foi proposto Cardinaletti (1999, 77), atendendo às estruturas com duplicação, como em son livre à lui, e que também põem em evidência o estatuto clítico do possessivo determinante. Em línguas como o português e o galego (Dubert e Galves 445), o italiano (Van Peteghem 2012), o catalão, o asturiano e o aragonês (Bozouita e Larsson 2020) e cujos exemplos são fornecidos em (1b), a variante com artigo é dominante e o possessivo exibe o comportamento de um adjetivo, coocorrendo preferencialmente / categoricamente, com um artigo definido.

  1. a. mon livre / mi libro [francês, espanhol]
    b. o meu livro / o meu libro / el mio llibru / lo mío libro / il mio libro / el meu llibre

8[Português Europeu, Galego, Asturiano, Aragonês, Italiano, Catalão]

(Bozouita e Larsson 3, 9)

9No plano diacrónico, as línguas românicas medievais apresentavam um mesmo padrão de possessivos pré-nominais (Simonenko e Cartier 1). Os possessivos podiam coocorrer com o artigo definido, como ilustrado em (2):

  1. a. Francês medieval: la tue aname el ciel seit absoluthe!
    b. Espanhol medieval: Bevemos so vino e comemos el so pan
    c. Português medieval: u o seu nome era escrito

10(Simonenko e Carlier 2)

11Não se observavam, portanto, as distinções entre o espanhol e o francês por um lado e o português europeu por outro, referidas inicialmente neste trabalho. Estas três línguas partilhavam ainda a propriedade de possuírem nas suas gramáticas medievais duas séries de possessivos, uma série dita curta ou fraca - ma, mes (francês medieval.), mi, mis (espanhol medieval.), m(h)a, mhas (português medieval.) - e outra, a série longa ou forte, meie, meies (francês medieval), mía, mías (espanhol medieval) e mi(nh)a, mi(nh)as (português medieval), como também observado por Mattos e Silva (1989, 1993).

12Esta situação não corresponde à que existe no estado atual das línguas românicas. Assim, apesar das propriedades partilhadas numa fase arcaica da língua e de percursos evolutivos semelhantes, como demonstrado em (Simonenko e Cartier 2022), com recurso a dados quantitativos de grandes bases de dados e à modelação estatística, a mudança ocorreu tanto no italiano como no português europeu. Para estas autoras, terão ocorrido o que designam como sendo mudanças falhadas, correspondente a uma alteração da direção da mudança em algumas línguas. Este processo estaria na origem da diferenciação observada na atualidade. As formas longas subsistem como pronomes apenas em francês e em espanhol; as formas curtas não sobrevivem no português e no italiano (cf. Tabela 1). Nestas línguas, a forma única (forte/longa) do possessivo ocorre tanto em posição pré-nominal como em posição pós-nominal (il mio libro / il libro mio; o meu livro / o livro meu (Castro 226). Em línguas como o francês e o espanhol, o possessivo prenominal nunca coocorre com o artigo definido; já no português e também no italiano, o possessivo, nesta posição, é quase categoricamente antecedido pelo artigo definido.

Tabela 1 Possessivos nas línguas românicas

Latim

Francês

Padrão

Espanhol

Padrão

Italiano

Padrão

Português

Europeu

fraca

forte

fraca

forte

forte

forte

SG

1

meus

mon

mien

mi

mio

mio

meu

2

tuus

ton

tien

tu

tuyo

tuo

teu

3

eius2 / suus

son

sien

su

suyo

suo

seu

PL

1

Noster

notre

nôtre

nuestro

nostro

nosso

2

voster

votre

vôtre

vuestro

vostro

vosso

3

eorum / sui

leur

su

suyo

loro

seu

13Lyons (1985) observa que as formas átonas (fracas) não se podem combinar com o artigo definido e correspondem às variantes conservadoras, mais próximas do latim, uma vez que nesta língua não havia artigo; já as formas fortes permitem o uso do artigo e correspondem por isso variantes inovadoras. Estas propriedades conduzem o autor a dividir as línguas nestes dois tipos, o primeiro com possessivos de tipo determinante, o segundo, onde o possessivo é de tipo adjetival. Para Van Peteghem (2012), este duplo estatuto de possessivos é também observado no facto de serem sintaticamente modificadores ou especificadores e referencialmente pronomes, o que explica a possibilidade de serem categorizados quer como adjetivos/determinantes, quer como pronomes. No entanto, é de mencionar o contributo de Cardinaletti (1998) que, com base num número mais extenso de propriedades, propõe uma divisão em três tipos: formas fracas e clíticas (para os PPNs) e formes fortes, para possessivos pós-nominais.

14No que se refere ao comportamento do PPN como determinante, a principal evidência apontada em Bozouita e Larsson (2020, 3-9) consiste na impossibilidade de, em línguas como o francês e o espanhol, o possessivo coocorrer com outros determinantes, tais como o artigo indefinido (*un mon livre / *um mi libro), o demonstrativo (*ce mon livre / *este mi libro, esta mia casa, em contextos formais) e os quantificadores, tais como chaque / cada (*chaque mon livre / *cada mi libro). No entanto, nem todas as línguas românicas, caracterizadas pela presença do artigo definido a anteceder o PPN exibem este conjunto de propriedades, como dá conta a Tabela 2, a seguir:

Tabela 2 Possessivos pré-nominais nas línguas românicas

línguas românicas

artigo definido o

demonstrativo este

artigo

indefinido um

quantificador

cada

possessivo adjetival

Português europeu

X

X

(X)vc

X

Galego

X

(X)

(X)

X

Asturiano

X

(X)

-

Aragonese

X

-

-

Catalão standard

X

(X)

(X)

Italiano standard

X

X

X

possessivo determinante

Espanhol standard

-

(X)

-

-

Francês standard

-

-

-

X: a maioria dos falantes aceita esta configuração

(X): alguns falantes aceitam esta configuração

(X)Vc: falantes de variedades mais conservadoras aceitam esta possibilidade

-: não aceite pela maioria dos falantes

15Fica patente na Tabela 2, acima, a diversidade das propriedades distributivas exibidas pelos sistemas do PPN nas línguas românicas, que não seriam apenas caracterizadas apenas por uma distribuição de variantes de PPN com e sem artigo definido. De acordo com Van Peteghem (2012), esta situação dá conta de diferentes graus de gramaticalização em que se encontram atualmente os possessivos românicos; o sistema do possessivo francês apresenta-se como aquele cujo processo se encontra mais adiantado, não apresentando nenhuma propriedade adjetival; o que se encontra menos gramaticalizado é o do italiano. Entre estes dois polos do continuum da gramaticalização, situa-se o espanhol. A sua posição intermédia combina propriedades de formas clíticas do sistema francês com o de formas tónicas (fortes), características do italiano.

16Como apontado por Bozouita e Larsson (2020), tanto as línguas dos exemplos (1a) como as dos exemplos (1b), embora exibam padrões dominantes distintos, os seus sistemas de possessivos pré-nominais apresentam padrões sintáticos mistos, o que acrescenta complexidade a este fenómeno linguístico. É o caso do PE e do catalão, por exemplo. Em ambas as línguas, os possessivos são maioritariamente construídos com um artigo definido, havendo poucos contextos em que o possessivo é realizado sem o artigo a anteceder. Em PE, é obrigatória a omissão do artigo definido , como mencionado por vários autores (entre outros, Cunha e Cintra 1985; Rinke 2010; Ferreira e Rio-Torto 2022), sempre que o possessivo integra uma fórmula de tratamento (Nosso Senhor, Nossa Senhora) ou um vocativo (Meu Amor) surge em expressões formulaicas (tais como, em minha opinião, em meu poder ou por minha vontade), quando é precedido de um demonstrativo (este meu quintal) assim como em contextos predicativos (Aquela senhora é minha professora).

17Por outro lado, há que referir os contextos onde o uso do artigo é variável, podendo ser omitido pelos falantes, como acontece quando o possessivo surge a anteceder um nome relacional, de parentesco, e onde se estabelece relações de posse entre os membros da mesma família, ou marcados com o traço semântico [+família]. Neste contexto linguístico, tanto no PE como também no galego (Silva Dominguez 2021), o artigo definido com o PPN mantém-se para a maioria dos falantes, embora se observe também a possibilidade da sua omissão (o meu amigo, *meu amigo; o meu pai - meu pai, ); no caso do catalão (Labrousse 2020), observa-se uma alternância de formas de possessivo, sendo a sua forma determinante, clítica, sem artigo, de uso mais restrito, limitada a nomes de parentesco que denotam relações próximas (meu amic [meu amigo] el meu pare – mon pare) [(o)meu pai]. A forma com artigo é requerida em italiano, quando o nome de parentesco se encontra no plural, como em, mio fratello vs i miei fratelli (cf. Cardinaletti 1998; Penello 2002; Van Peteghem 2012). Em dialetos do espanhol, os termos de parentesco permitem o uso variável do artigo definido, observando-se a ocorrência da variante com artigo, em contraste com o espanhol standard, onde a variante de possessivo sem artigo é dominante (Labrousse 2020).

18Por fim, cabe ainda fazer uma referência ao sistema do possessivo do romeno que se distingue dos dois tipos, adjetival e determinante, até agora contemplados. Para Van Peteghem (2012) observa-se nesta língua românica um terceiro tipo, pronominal, uma vez que as suas formas de possessivo (genitivo) são idênticas às formas fortes do dativo dos pronomes pessoais (cartea lui [o livro dele], cartea ei [o livro dela], careta lor [o livro deles]) .

19Embora não corresponda uma descrição exaustiva da grande diversidade inter- e intralinguística no domínio das línguas românicas, que ultrapassaria os limites deste artigo, esta apresentação permite vislumbrar, em nosso entender, um quadro geral dos sistemas de PPNs nas línguas românicas, a partir de um critério diferenciador (cf. Tabela 1), sendo também referidas outras propriedades que vêm atenuar as fronteiras tipológicas nestas línguas, conferindo-lhes um caracter mais híbrido (cf. Tabela 2). Por fim, a consideração de dados dialetais destas línguas faz aumentar, como esperado, a sua complexidade descritiva.

2.Variedades do português

20Na esfera do português, observa-se também variação entre variedades geográficas e sociais. O fenómeno variável permite diferenciar, por exemplo o PE do Português do Brasil (PB) e variedades do português faladas no continente africano, por outro (Dubert e Galves 445, Ferreira e Rio-Torto 2022). A variedade europeia do português é vista como aquela em que o possessivo pré-nominal exige a presença de artigo definido, ao contrário do PB, em que a presença do artigo diante de possessivos pré-nominais é variável e em que os usos das formas sem artigo ocorrem em contextos mais alargados, sendo esta variante considerada dominante.

21Para Castro (2006), no entanto, não há nada no sistema dos possessivos do português que separe as variedades PE e PB. Para esta autora, o artigo diante do possessivo pré-nominal é um elemento expletivo, ou seja, não tem conteúdo semântico, sendo a propriedade de “definitude”, ou a possibilidade de identificar elementos do discurso como algo único para os participantes da interação verbal (emissor e recetor), incorporada no possessivo, tal como acontece noutras construções nominais, nomeadamente as que envolvem nomes próprios (o Pedro vs ∅ Pedro) ou ainda em SNs de interpretação genérica (os italianos bebem vinho, vs ∅ italianos bebem vinho), foneticamente nulo em PB, mas de realização obrigatória em PE padrão.

22Quando se considera o português no plano diacrónico, observa-se em corpora organizados de textos produzidos em diferentes períodos históricos do português, que o artigo definido é omitido em sintagmas nominais com possessivo no português antigo do século XIII (Rinke 121), passando a sua realização a ser mais frequente a partir do século XV (Said Ali 96), chegando a superar a variante sem artigo a partir do século XVII (Magalhães 2011) ou do século XIX (Floripi 2008, Rinke 2010, Costa 2016). Entre os dois polos temporais, representados pelos séculos XIII e XIX, a presença do artigo é, portanto, variável. No século XIX, o uso do artigo surge como a opção dominante, com 86% dos dados analisados por Rinke (2010), generalizando-se o seu uso no PE, à exceção dos contextos em que o possessivo antecede nomes de parentesco (Rinke 136). A maior representatividade do uso de artigo diante de possessivo pré-nominal no século XIX será objeto de mudança no século XX: em textos de autores portugueses predomina a presença do artigo e, inversamente, nos de autores brasileiros a omissão de artigo surge como a opção mais frequente. Face a esta configuração histórica, sumariamente apresentada, a variedade do PE parece não ter dado continuidade ao português mais antigo, divergindo deste, contrariamente ao PB que mantém ou inova a uma estrutura desde sempre existente no português. Floripi (2008), com base em Castro (2006), reconhece no PE moderno, uma situação de variação dialetal, caracterizada pela coexistência de uma variante mais conservadora e de uma variante inovadora. Rinke (2010), em consonância com Floripi (2008), assume que a mudança que se verificou no PE, decorre de reanálise na natureza do artigo definido e não do sistema possessivo. Para esta autora, trata-se de um processo de gramaticalização do artigo definido ao longo da história do PE e que conduz à generalização/extensão do seu uso em contextos em que um sintagma nominal possessivo é interpretado como definido. Para esta autora, contrariamente às hipóteses formuladas inicialmente neste trabalho, a mudança linguística observada no português no que se refere ao artigo em contextos possessivos não refletiria uma mudança categorial do possessivo (de determinante para adjetivo) nem estaria relacionada com a perda de um paradigma caracterizado pela presença de formas possessivas fracas e fortes.

23O estudo diacrónico de Costa (2016), a partir dos dados de textos produzidos entre os séculos XVI e XIX, que integram o corpus anotado do Português Histórico Tycho Brahe (Galves, Andrade e Faria 2017) constitui um outro contributo de relevo sobre evolução do uso variável do artigo definido em sintagmas possessivos no português. A autora analisou, em textos que vão do século XVI ao século XIX, as ocorrências de sintagmas PPNs na função sujeito, precedidos ou não de artigo definido, em correlação com a semântica de N: por um lado, nomes comuns e, por outro, nomes relacionais e de parentesco.

Tabela 3 Distribuição do artigo definido com sintagmas PPNs em função sujeito (nomes comuns vs. nomes relacionais/ de parentesco – Corpus Tycho Brahe (Costa 179).

século

nomes comuns

nomes relacionais / parentesco ou com traço semântico [+família]

com artigo

sem artigo

com artigo

sem artigo

XVI

34 oc. / 34%

65 oc. / 66%

0 oc. / 0%

16 oc. / 100%

XVII

95 oc. / 75%

31 oc. / 25%

1 oc. / 6%

17 oc. / 94%

XVII

226 oc. / 96%

9 oc. / 4%

15 oc. / 31%

34 oc. / 69%

XIX

123 oc. 97%

4 oc. / 3%

66 oc. / 29%

159 oc. / 71%

24A autora observa que a variação vai no sentido do incremento da frequência da variante com artigo não só quando o possessivo é seguido de nomes comuns, mas também com nomes de parentesco; inversamente, sublinha uma progressiva diminuição da variante sem artigo em ambos os contextos nominais, apesar de a frequência da omissão de artigo com o possessivo seguido de nomes continuar a ser muito elevada e dominante relativamente à variante com artigo, com 71% e 29% respetivamente.

25Na área do PE, tanto Miguel (2002) e Castro (2006) como Brito (2007) mostram que o sistema dos PPNs não é homogéneo. De acordo com Brito (2007), coexistiriam três gramáticas em competição, com estatuto distinto (cf. Tabela 4): uma gramática dominante, na qual os possessivos são quase clíticos, são acompanhados de artigos definidos e não combinam com o artigo / quantificador indefinido; uma segunda gramática não-dominante I, caracterizada por ser mais conservadora e formal, mais presente na modalidade escrita que, ao contrário da dominante, permite que certos advérbios (a ainda minha mulher) e outros elementos interrompam a adjacência obrigatória do artigo e do possessivo, característica da variedade dominante. Estas duas gramáticas também se distanciariam entre si na medida em que a mais conservadora aceita indefinidos antes dos possessivos (uns meus livros), embora limitados a uma leitura específica. Por fim, a terceira gramática não-dominante II, contempla os usos de omissão do artigo por falantes do PE em contextos mais restritos, como o do possessivo seguido de nomes de parentesco, ou [+família], na modalidade oral e nos dialetos do sul de Portugal.

Tabela 4 Gramáticas em Competição de PPNs no PE.

26Fonte: Brito (2007, 47-8).

Pré-nominal

Gramática dominante do PE

Gramática não-dominante I “conservadora” (formal)

Gramática não-dominante II (sul e oral)

o meu livro

a ainda minha mulher

a já sua noiva (Brito 2003, 509)

*uma minha amiga chega amanhã (Miguel 223)

a/uma minha amiga saiu.

o/um meu amigo trouxe-me uma prenda de Paris. (Brito 2007, 30)

O muito meu e muito teu amigo. (Brito 2007, 39)

A minha linda carteira

Algumas minhas amigas foram ver a galeria de arte. (Miguel 221)

A minha mãe saiu.

Minha mãe saiu

(Brito 2007, 41)

27Esta proposta para o PE dá conta do facto da variação e da complexidade do quadro de PPNs nesta variedade. A polarização das variedades do PE e do PB é mais ténue quando se considera uma das gramáticas não-dominantes do PE, que permite, em contextos mais restritos, como os de possessivos seguidos de nomes de família, a omissão do artigo. Em variedades do PB, no entanto, esta omissão é mais frequente e ocorre em contextos mais alargados, como em Minha carteira sumiu; Teu amigo é inteligente (Brito 2003, 514), tal como acontece em contextos com uma leitura genérica, em que o nome é realizado sem determinante, ou “nome nu”, como em Menino bagunceiro será punido (Silva 21).

28Silva e Callou (1996) especificam um conjunto de fatores que condicionam a variação do uso do artigo definido, entre eles, (i) a natureza da preposição, com a preposição de a favorecer mais a presença do artigo, (ii) a função sintática do PPNs, e a sua realização como sujeito a ser acompanhada maioritariamente com o artigo, (iii) a natureza semântica de N, com N marcado o traço [+partes do corpo] a surgir com maior frequência com o artigo, e, inversamente, a omissão do artigo a coocorrer mais com N marcado [+família] bem como o fator linguístico (iv) a flexão do possessivo e extralinguístico (v) a localização / a região dos falantes. Estes fatores mostraram-se também relevantes em estudos posteriores como, entre outros, os de Callou e Silva (1997), Galo (2016), Oyama (2018) e Silva (2020).

29Relativamente às variedades africanas do português, uma pequena nota, para os trabalhos recentes de Gomes e Cordeiro (2021) e Cordeiro e Gomes (2022), tendo por foco a variedade do Português de São Tomé. Em Gomes e Cordeiro (105), os resultados mostram que a presença do artigo com PPNs é ainda um fenómeno produtivo (54% dos dados, 287/517 ocorrências). Este facto revela, por um lado, uma maior distância relativamente à norma de referência, o PE, e, por outro, usos mais próximos das tendências observadas no PB.

30Na esfera do PE, o estudo de Carrilho e Pereira (2011), realizado a partir de dados dialetais desta variedade, que integram o CORDIAL-SIN, permite especificar que comunidades de falantes do PE possuem na sua gramática uma regra variável para o uso de artigo diante de possessivo pré-nominal.

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Figura 2 Distribuição de possessivos pré-nominais sem artigo, com nomes de parentesco no CORDIAL-SIN (Carrilho e Pereira 132)

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Tabela 5 Ocorrências de possessivos pré-nominais sem artigo, com nomes de parentesco, nas localidades dos Açores e da Madeira (Carrilho e Pereira 133)

31Graças a este estudo é possível configurar geograficamente a Gramática não Dominante II no PE concebida por Brito (2007). Esta gramática está indexada a falantes dos espaços insulares de Portugal (Açores e Madeira) do PE.

32Face a estes contributos, procurou-se, no estudo realizado no Funchal e objeto deste artigo, alargar um pouco mais a base empírica e perceber melhor a natureza sociolinguística deste fenómeno variável. Atendendo ao fator localização / região, apontado por Silva e Callou (1996, 122) como um fator extralinguístico que condiciona a presença / ausência do artigo definido antes de um possessivo, pretende-se, neste trabalho de investigação, aprofundar a sua análise, de modo a configurar possíveis padrões de usos sociolinguísticos numa variedade urbana do PE insular. Com efeito, as autoras observam que, no contexto do PB, é notória a preferência pela omissão de artigo diante de possessivo nas regiões mais conservadoras e mais próximas do português dos séculos XV e XVII. Os resultados publicados por Callou e Silva (1997, 21), a partir de dados de falantes brasileiros de seis capitais do Brasil, retirados das coleções constituídas no âmbito do projeto NURC/BR, confirmam a relevância deste fator, permitindo mesmo traçar um continuum da frequência do uso do artigo definido com possessivo pré-nominal: dos valores mais elevados de omissão do artigo encontram-se nas cidades do nordeste brasileiro - Recife (40%, 39/98 oc.) e Salvador (34%, 30/87 oc.); as cidades do sul e do sudoeste apresentam valores menores de ausência de artigo - Porto Alegre (21%, 7/33 oc.), São Paulo (30%, 62/209 oc.) e o Rio de Janeiro (30%, 119/399 oc.). O estudo mais recente de Guedes (2019) corrobora estes resultados; existiria, assim, segunda a autora, uma polarização Nordeste vs. Sudeste quanto ao uso de artigos definidos em sintagmas PPNs no PB, indicando que variável região geográfica do falante ser pertinente para a análise deste fenómeno. Neste sentido, pretende-se aferir se é possível concluir do mesmo modo em relação ao PE, e se variedade insular considerada pode ser vista como mais conservadora neste domínio linguístico, preservando uma gramática que deixou de ser dominante em variedades continentais do PE.

III. Estudo sociolinguístico do uso variável do artigo em sintagmas PPNs no PE falado no Funchal

33Nesta terceira parte, são apresentados os aspetos metodológicos e os resultados mais relevantes do estudo realizado com uma amostra de dados produzidos por falantes madeirenses do Funchal (ilha da Madeira, Portugal), respetivamente nas secções 1 e 2.

1. Metodologia

34Este trabalho recorre ao protocolo de tipo quantitativo preconizado pela sociolinguística variacionista, na versão configurada para o projeto Concordância/Comparaport . Os dados de fala são analisados atendendo à variável dependente (presença vs ausência de artigo com um possessivo pré-nominal) e a um conjunto de variáveis independentes, de natureza linguística e extralinguística. O tratamento estatístico é realizado através do software Goldvarb X .

Amostra

35A amostra contém dados de 12 informantes (cf. Tabela 6) com os níveis 1 (até ao 9º ano do ensino básico) e 3 (diplomados do ensino superior) de escolaridade.

Tabela 6 Amostra de informantes do Funchal (ilha da Madeira, Portugal)

faixa etária

nível 1 de escolaridade

(até 9º ano)

nível 3 de escolaridade (licenciados)

Homem

Mulher

Homem

Mulher

A (18-35 anos)

FNC10-HA1

FNC11_MA1

FNC10_HA3

FNC11 MA3

B (36-55 anos)

FNC13_HB1.2

FNC15_MB1

FNC10_HB3

FNC11_MB3.1

C (56- 75 anos)

FNC17_HC1

FNC11_MC1.1

FNC15_HC3

FNC11 MC3

36As ocorrências, indicadas em (3) e em (4), foram extraídas das transcrições do CSF .

37(3) a. não a educação _por exemplo_ minha mãe se fosse à escola ê [eu] eu ia levar uma acelerada (FNC17_HC1)
b. só que
minha prima foi pó meio da fazenda (FNC13_HB1.2)
c. eh eh catarina salete (risos) más [mais]
minha prima a lara (FNC11_MA1)
d. portanto
meu tio (FNC15_HC3)

38(4) a. hoje o mê [meu] prate [prato] (FNC17_HC1
b. o meu pai falava comuigue [comigo] e eu ouvuia [ouvia] (FNC11_MA1)

Variáveis (sociais e linguísticas)

39Do levantamento de todas as ocorrências de possessivo com e sem o artigo definido foram excluídos os vocativos, interjeições, artigos indefinidos, bem como a forma de tratamento “seu” (equivalente a senhor), referidos nos exemplos dados em (1).

40Para além das variáveis sociais e extralinguísticas (faixa etária, sexo e nível de escolaridade) associadas a cada informante, foram tidas em conta as variáveis linguísticas, mencionadas na literatura, tais como (i) tipo de possessivo, tendo sido consideradas as propriedades de pessoa (primeira e terceira), género (feminino ou masculino) e flexão do possesivo em número (singular ou plural), (ii) a presença ou não de uma preposição e (iii) o traço semântico do N (relação de parentesco ou não, respetivamente [+família] e [-família]).

2. Resultados

41Nesta secção, os resultados obtidos estão estruturados em três pontos. No primeiro, são apresentados os valores totais obtidos. Nos pontos seguintes, são analisados os resultados considerados mais relevantes, quando se consideram os fatores sociais e linguísticos, respetivamente.

Resultados globais

42Como se observa no Gráfico 1, o uso do artigo antes do possessivo é a variante dominante, com 515/597 ocorrências ou 86%; a variante sem artigo regista 82/597 ocorrências e a percentagem de 14%.

Image 1000020100000290000001366B701BB464377178.png

Gráfico 1 Presença vs. ausência de artigo definido em sintagmas possessivos na amostra do CSF

43De acordo com a categorização de tipo de regras que atuam na gramática dos falantes (Labov 2003, Vieira e Brandão 2014) – regra categórica (100%) de usos; regra semicategórica (usos entre 95 e 99%) e regra variável (usos que se situam entre 5% e 95%) – este resultado global aponta para o facto do uso do possessivo com ou sem artigo estar sujeito a uma regra variável na gramática de alguns falantes madeirenses do PE.

44A Tabela 6, a seguir, mostra os valores de significância estatística dos fatores que condicionam o uso da variante padrão, com o artigo definido a anteceder o possessivo.

Tabela 6 Valores de significância estatística (pesos relativos) dos fatores que condicionam o uso da variante padrão.

fatores extralinguísticos

Pesos relativos

  • sexo

    • Masculino

    • Feminino

  • Faixa etária

  • A (18-35 anos)

  • B (36-55 anos)

  • C (56-75 anos)

0.33

0.63

0.85

0.30

0.06

fatores linguísticos

peso relativo

  • Morfologia do possessivo

    • Feminino (minha, minhas, etc.)

    • Masculino (meu, meus, etc.)

0.61

0.41

  • semântica de N [-família]

    • com traço [-família]

    • com traço [+família]

0.34

0.67

Significância: 0,022

45A produção da variante padrão é condicionada tanto por fatores sociais como por fatores linguísticos. Assim, na comunidade insular investigada, a probabilidade de se observarem usos desta variante é maior se ela resultar da produção de falantes do sexo feminino, jovens, com estudos superiores, se o possessivo for da forma minha tua sua (feminino) e antecede nomes que não sejam lexicalmente considerados de relações familiares próximas. Já diante de nomes de parentesco e com possessivos meu, teu, seu, existem maiores possibilidades de usos não padrão, sem artigo definido, se os responsáveis por este tipo de produção forem informantes mais velhos, pouco escolarizados e do sexo masculino.

Fatores Sociais

46A Tabela 7 dá conta dos resultados globais, quando se têm em conta as variáveis sociais.

Tabela 7 Variáveis sociais e usos (ocorrências e percentagens) das variantes com e sem artigo definido em sintagmas possessivos (total de 597 ocorrências).

sexo

faixa etária

nível de escolaridade

Homem

Mulher

18-35

36-55

56-75

1- básico

3- superior

com artigo

201 (79,4%)

314 (91,3%)

273 (98,6%)

168

(84,8%)

74

(60,7%)

289 (81,9%)

226 (92,6%)

sem artigo

52 (20,6%)

30

(8,7%)

4

(1,4%)

30

(15,2%)

48

(39,3%)

64

(18,1%)

18

(7,4%)

47Os resultados permitem observar algumas tendências de usos. Relativamente ao uso da variante não padrão, sem artigo definido, são os informantes masculinos que mais a utilizam, totalizando 52 ocorrências ou 20,6%, valores muito significativos quando comparados com os dados de falantes do sexo feminino, cuja percentagem de usos desta variante é de 8,7%. Este padrão regista-se também quanto se tem em consideração as variáveis idade e escolaridade dos informantes; os falantes mais velhos, que se encontram na faixa etária (56-75 anos), com 39,3 % são os que mais usam esta variante, em contraste com os mais novos, que registam apenas 1,4%; por fim, verifica-se também a relevância da variável escolaridade, uma vez que os falantes com formação básica (nível 1) produzem 18,1 % de formas não padrão, em contraste nítido com os diplomados do ensino superior (nível 3) responsáveis por apenas 7,4% de ocorrências deste tipo.

48O Gráfico 2, a seguir, põe em evidencia estas tendências, que se mostram mais acentuadas quando se cruzam as variáveis sexo e nível de escolaridade.

Image 10000201000003050000016CCB79D1CCA9C342E4.png

Gráfico 2 Resultados da variação presença / omissão de artigo definido com possessivos pré-nominais em função das variáveis sociais sexo e escolaridade dos informantes do Funchal.

49Vale a pena assinalar que é junto dos informantes madeirenses mais escolarizados que se observa uma maior incidência do variável sexo. Neste grupo, apenas os participantes do sexo masculino produzem a variante não padrão sem artigo, não se observando ocorrências em falantes do sexo feminino.

50Quando se cruzam os dados dos informantes mais velhos, que se situam na faixa C (56-75 anos), com a variável sexo, observa-se também um contraste significativo. Nesta faixa e em falantes do sexo masculino, o uso da variante sem artigo atinge valores acima dos 50% e superiores aos da variante padrão, com artigo definido. (Gráfico 3).

Image 100002010000029F000001474DF35A9AC24B03FA.png

Gráfico 3 Resultados da variação presença / omissão de artigo definido com possessivos pré-nominais em função das variáveis sociais sexo e idade (faixa etária) dos participantes do Funchal.

Fatores linguísticos

51Os resultados, quando se têm em consideração as variáveis linguísticas selecionadas para este trabalham mostram valores mais expressivos de usos possessivos pré-nominais sem artigo quando estão reunidas três condições: o possessivo é meu, com referência de 1ª pessoa (18,1%), no singular (15,9%) e no masculino (15,3%) e seguido de um nome de parentesco (22,6%), conforme é possível constatar na Tabela 8, a seguir.

Tabela 8 Resultados globais expressos em número de ocorrências e percentagens, das variáveis linguísticas consideradas.

variáveis

com artigo

sem artigo

ocorrências

percentagens

ocorrências

percentagens

referência de pessoa do possessivo

1ª pessoa

289/353

81,9%

64/353

18,1%

3ª pessoa

226/244

92,6%

18/244

7,4%

género e número do possessivo

feminino

287/339

84,7%

52/334

15,3%

masculino

228/258

88,4%

30/258

11,6%

singular

369/439

84,1%

70/439

15,9%

plural

146/158

92,4%

12/158

7,6%

semântica de N

traço [família]

[- fam]

275/287

95,8%

12/287

4,2%

[+fam]

240/310

77,4%

70/240

22,6%

preposição

à esquerda do possessivo

com preposição

299/351

85,2%

52/351

14,8%

sem preposição

216/246

87,8%

30/246

12,2%

52A presença da preposição também parece condicionar o uso do possessivo sem artigo, mas não de forma tão significativa quando as outras variáveis acima mencionadas.

53Como referido na ponto inicial da apresentação dos resultados, a propriedade semântica do Nome, em particular a que se prende com o facto de ser categorizado como sendo de parentesco ou [+família], constitui o fator linguístico de maior peso, ou seja, aquele que mais condiciona a variação.

54De facto, os resultados mostram uma maior incidência na ausência de artigo definido com possessivo pré-nominal, perante N [+família]; a frequência desta variante, neste contexto linguístico, é de 23%, como se observa no Gráfico 4.

Image 10000201000003050000014111E5BC8E2BDCC179.png

Gráfico 4 Resultados da variação presença / omissão de artigo definido com possessivos pré-nominais seguidos de nomes de parentesco em falantes do Funchal (ilha da Madeira).

55Este fator aumenta o número de ocorrências da variante; ela corresponde a 79 / 82 ocorrências dos usos sem artigo definido e dito de outro modo, 96,3% dos usos desta variante ocorrem com a presença de N [+ família] nos sintagmas possessivos pré-nominais.

56O cruzamento desta variável linguística com variáveis sociais (Tabela 9) faz emergir de modo mais saliente um perfil de falantes madeirenses que exibem uma maior tendência para o uso da variante sem artigo definido, que é o seguinte: falante do sexo masculino (41%), mais velho, entre 56 e 75 anos (51%) e com escolaridade básica (31%).

Tabela 9 Usos das variantes com e sem artigo definido em sintagmas possessivos seguidos de nomes de parentesco e variáveis sociais.

sexo

faixa etária

nível de escolaridade

Homem

Mulher

18-35 anos

56-75 anos

1- básica

3- superior

com artigo

72

(59%)

168

(89%)

112

(97%)

40

(49%)

140

(69%)

100

(94%)

sem artigo

59

(41%)

20

(11%)

4

(3%)

42

(51%)

64

(31%)

6

(6%)

57No que diz respeito às outras variáveis linguísticas – presença / ausência de preposição à esquerda dos sintagmas possessivos (Gráficos 5 e 6), os resultados não apresentam contrastes muito significativos

Image 10000201000001980000014764B4B128DA6329B7.png

Gráfico 5 Fatores linguísticos nos usos das variantes com e sem artigo definido em sintagmas

58possessivos: presença de preposição[+prep] ausência de preposição [-prep].

Image 10000201000001B10000014907378EAEBFAE4A00.png

Gráfico 6 Fatores linguísticos nos usos das variantes com e sem artigo definido em sintagmas

59possessivos: possessivo[+sing] vs. Possessivo [-sing].

60Apenas o possessivo no singular (cf. Gráfico 6) surge como uma variável potenciadora de usos de possessivo sem artigo (16%). Aliás, no total de 82 ocorrências de variante sem artigo registado neste estudo, 70 correspondem a possessivos no singular, o que representa 85,3%.

IV. Considerações Finais

61Este estudo, tendo por foco uma comunidade de falantes insulares do PE, oriundos da cidade do Funchal, capital da ilha da Madeira (Portugal), permitiu confirmar que o fenómeno variável em questão, obedecendo a uma Gramática Não Dominante de tipo II do PE definida por Brito (cf. Tabela 4), é sensível ao fator regional / localização. A variante não-dominante com omissão de artigo definido em sintagmas possessivos pré-nominais ainda faz parte da gramática de alguns falantes da comunidade madeirense do Funchal. O seu uso tem maior incidência em falantes mais velhos, do sexo masculino e pouco escolarizados, estando quase circunscrito ao contexto linguístico em que o possessivo coocorre com um nome de parentesco ou com traço [+família]. Por outro lado, esta investigação traz outros novos dados sociolinguísticos. Os usos da variante com omissão de artigo definido não estão circunscritos a falantes rurais madeirenses (cf. Figura 2 e Tabela 6, com resultados de Carrilho e Pereira 2011), mas estende-se a falantes urbanos desta região insular. No entanto, é de mencionar que estes falantes urbanos se aproximam, do ponto de vista etário, por terem um nível de escolaridade baixo e serem maioritariamente do sexo masculino, do perfil dos participantes das amostras dialetais integradas no CORDIAL-SIN.

62Apesar do avanço no conhecimento das características sociolinguísticas dos usos da variante com omissão do artigo no âmbito do PE, uma análise ainda mais aprofundada é desejável. Não só a necessidade de uma maior amostra surge como pertinente, como também o é, o estudo de fatores linguísticos já aprofundados em trabalhos sobre o PB, como a função sintática, sujeito e objeto, do sintagma possessivo (Costa, 2016), alargada a outras funções, como analisado por Silva (2020), mas também em PE, no plano diacrónico Rinke (2010), por um lado, e considerar itens preposicionais (a, de, com, etc.), como, por exemplo, em Costa (2016) e Silva (2020) e não unicamente a variável presença / ausência de preposição a anteceder o sintagma possessivo.

Bibliographie

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Pour citer ce document

Aline BAZENGA, «Variação em construções possessivas pré-nominais do português: um estudo sobre os usos de falantes do Funchal (Ilha da Madeira, Portugal)», Reflexos [En ligne], N° 006, mis à jour le : 14/01/2023, URL : https://revues.univ-tlse2.fr:443/reflexos/index.php?id=826.

Quelques mots à propos de :  Aline BAZENGA

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