Reflexos
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N° 006

[Sommaire du numéro]

 

Jady Geovana Veroneses ALVES

Predicadores complexos com o verbo suporte bancar: uma análise construcional

Résumé

L'objectif principal de cet article est d'analyser les constructions avec des prédicats complexes d'un point de vue constructionnel, en particulier les prédicats avec le verbe “bancar”. Pour cela, nous avons utilisé comme méthodologie la collecte du corpus à partir des actualités sur le site Google News et des publications/commentaires sur les réseaux sociaux (Facebook, Twitter et Instagram), en observant non seulement les constructions avec ce verbe, mais aussi les significations qui y sont liées, l'intentionnalité et les contextes d'utilisation. De plus, nous avons effectué un tri des données pour observer la productivité des constructions dans différents genres (type et token fréquences) pour vérifier le comportement du verbe bancar et les éléments déclenchés par celui-ci pour remplir le slot lié au verbe support. Ainsi, l'analyse des données est quali-quantitative au regard de la grammaire des constructions.

Abstract

The main objective of this article is to analyze constructions with complex predicates from a constructional perspective, specifically predicates with the verb “bancar”. To do so, the methodology used was to assemble a corpus from the Google News website and publications/comments on social networks (Facebook, Twitter and Instagram), not only observing constructions with this verb, but also meanings that are linked to the intentionality and the contexts of its use. Furthermore, we screened data observing the productivity of constructions in different genres (type and token frequencies) to verify the behavior of the verb bancar and the elements triggered by it to fill the slot related to the support verb. Therefore, the analysis of the data is quali-quantitative and is carried out according to Construction Grammar.

Resumo

O presente artigo tem como objetivo principal analisar construções com predicadores complexos sob a perspectiva construcional, especificamente predicadores com o verbo “bancar”. Para isso, utilizamos como metodologia a coleta do corpus partir de notícias no site Google Notícias e publicações/comentários em redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram), observando não somente as construções com esse verbo, mas também sentidos que são vinculados, a intencionalidade e os contextos de uso. Além disso, fizemos uma triagem dos dados observando a produtividade das construções nos diferentes gêneros (frequências type token) para verificar o comportamento do verbo bancar e os elementos acionados por ele para o preenchimento do slot que se liga ao verbo suporte. Assim, a análise dos dados é quali-quantitativa e feita à luz da gramática de construções.

Texte intégral

Introdução

1Nós, seres humanos, estamos em constante busca por construir significados através das palavras e isso porque sentimos a necessidade de nos expressarmos através delas. Nesse sentido, devido a essa dinamicidade na língua e necessidade de ressignificação, os falantes fazem uso de construções linguísticas comumente atribuindo-lhes uma conotação específica. De acordo com Gomes; Kantack (2021), “reconhecemos que as dinâmicas acionadas na língua em uso refletem diretamente no estado atual das estruturas linguísticas (apud BYBEE, 2016), e, por esse motivo, essas atividades reais são o lócus para a inovação, alternância/variação e mudança linguísticas”. (p. 13)

2A motivação para desenvolver esta pesquisa se deu a partir da comparação de construções com o verbo bancar como verbo pleno (predicador simples) e como verbo suporte (predicador complexo) e da percepção de significados diferentes que eles assumem. Como verbo pleno, o sentido é de financiar (bancar a X => bancar a faculdade); como verbo suporte, o sentido é de simulação (bancar o X => bancar o valentão). Ainda, deparamo-nos com o verbo bancar no sentido de sustentar uma ideia ou argumento, como “agora quero ver bancar o que disse”, no entanto, em nossa análise, daremos foco ao sentido de simulação.

3Portanto, nossos objetivos são: (I) identificar a natureza do verbo bancar como predicador simples e complexo; (II) verificar se existe uma atitude inter(subjetiva) do falante em padrões construcionais com o verbo bancar como verbo suporte; (III) averiguar se há aspectos em comum entre os sintagmas nominais acionados por esse verbo para preencher o slot de X; (IV) observar se o uso de bancar como suporte seleciona algum contexto de formalidade específico; e (V) atestar que as construções analisadas são pares de forma-sentido que representam um fenômeno de ressignificação/ampliação de uso na língua.

II. Gramática de Construções (GC) e Sociofuncionalismo

4Formulada no contexto da Linguística Cognitiva, a Gramática de Construções parte principalmente de uma perspectiva sincrônica, entendendo a língua como sendo constituída do pareamento forma-significado, que resulta nas chamadas construções, organizado em redes (GOLDBERG, 2006; LANGACKER, 2008). Desse modo, é possível entender o conhecimento linguístico dos falantes consiste em uma rede de construções.

5Na análise linguística, são considerados tanto aspectos de forma quanto de função. A figura a seguir mostra a proposta de pareamento forma-sentido da Gramática de Construções Radial (GCR) defendida por Croft (2001, p. 18):

6Figura 1

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Fonte: Croft (2001:18)

7Tal representação feita pelo autor considera o sentido como a função de uma construção, que pode incluir as propriedades semânticas, as propriedades do discurso em que o enunciado é usado e as propriedades da situação pragmática dos interlocutores. Por isso, utilizaremos a Gramática de Construções baseada no uso para analisar ocorrências de construções com predicadores complexos com o verbo bancar.

8Cabe ressaltar que a Gramática de Construções partilha de pressupostos teórico-metodológicos da Linguística Funcional, portanto os dados de análise linguística que estão na estrutura da língua são pensados a partir do uso dos falantes em contextos reais de comunicação, o que significa que a organização gramatical é moldada pelo uso da língua (BARLOW; KEMMER, 2000; BYBEE, 2010).

9Assim, ao contrário das visões formalistas da linguagem, que veem a língua como objeto autônomo, cuja estrutura independe de seu uso em situações comunicativas reais, a Gramática de Construções assume uma visão funcionalista ao enxergar a função como elemento essencial à linguagem, compreendendo a língua para além do sistema e buscando entender as finalidades de uso que estão em um universo extralinguístico. Isso porque a gramática pode ser afetada pelo uso em situações cotidianas de interação comunicativa. Segundo Furtado da Cunha, Oliveira e Martelotta (2003),

O termo funcionalismo ganhou força nos Estados Unidos a partir da década de 70, passando a servir de rótulo para o trabalho de lingüistas como Paul Hopper, Sandra Thompson e Talmy Givón, que passaram a advogar uma lingüística baseada no uso, cuja tendência principal é observar a língua do ponto de vista do contexto lingüístico e da situação extralingüística. (p. 22)

10Segundo May (2009) e Görsky e Tavares (2013), desde os anos 80, várias pesquisas têm sido realizadas mostrando a articulação entre a Sociolinguística Variacionista e o Funcionalismo Norte-americano na análise de fenômenos de variação e mudança linguística, resultando no Sociofuncionalismo. Tal vertente oferece ferramentas para a exploração de relações entre formas e funções/significações: multifuncionalidade (uma forma e mais de uma função) e variação (mais de uma forma e uma função).

11Ademais, os autores sociofuncionalistas defendem os pontos de contato basilares entre as duas teorias: prioridade da análise da língua a partir de seus diferentes usos; visão de língua como entidade heterogênea, sujeita a variação e mudança; destaque para a mudança linguística como processo gradual e contínuo; complementariedade entre dados sincrônicos e diacrônicos para maior refinamento dos resultados; crença no princípio do uniformitarismo, em que as mesmas forças linguísticas e sociais atuam no passado e no presente nos processos de variação e mudança; análise de diferentes níveis da língua (fonológico, morfológico, sintático, semântico); relevo para a frequência de ocorrências como índice de difusão sociolinguística e fator funcional fundamental para o estabelecimento e a manutenção da gramática; relação íntima entre língua e sociedade; relevância de fatores interacionais na variação e na mudança (cf. GÖRSKY; TAVARES, 2013; TAVARES, 2013; TAVARES; GÖRSKY, 2015).

III. As construções com predicadores complexos

12Na perspectiva de pareamento forma-significado (CROFT, 2001), é possível que uma construção apareça em discursos através de construtos com a mesma forma, mas diferindo em termos de significado. Esse é o caso de verbos que assumem um significado quando é predicador simples e outro significado quando é predicador complexo.

13Pode-se dizer que os predicadores complexos envolvem, entre outras possibilidades de verbos gramaticalizados, os verbos suportes (também conhecidos, na literatura, como verbalizadores ou verbos leves, como em Raposo et al (2013).

14Acerca desse tipo de verbo, Machado Vieira (2018, p. 93) aponta que:

Verbo suporte é o nome dado a usos de formas verbais que operam rotineiramente sobre um elemento não-verbal (em geral, um constituinte nominal – substantivo ou adjetivo –, embora seja possível outra configuração desprovido de sua função primária referencial ou atributiva, conferindo-lhe estatuto verbal e formando com ele uma unidade funcional predicante, ou seja, um predicador complexo.

15Borba (2002, p. 7) também utiliza o termo “verbo suporte” e define essa categoria da seguinte forma:

Suporte: é o verbo que participa de uma construção complexa como mero suporte de categorias verbais (tempo, modo, número, pessoa) uma vez que o núcleo do predicado está num nome (comumente abstrato): ter medo [= temer]; causar dano [= danificar]; abrir falência [=falir].

16Dessa forma, consideramos que a estrutura de um predicador complexo contém em sua predicação verbal um verbo suporte, que partilha com o elemento não-verbal (sintagma nominal, sintagma adjetival, sintagma preposicional) a requisição ou não de papéis participantes, bem como a atribuição da natureza dos papéis.

17Quando se fala em natureza dos papéis participantes, está em jogo a predicação. Machado Vieira (2018) afirma que a natureza do verbo suporte é mais previsível que a do elemento não-verbal. Isso porque há uma relativa repetição na compatibilização de certas formas verbais na formação de predicadores complexos e, por outro, uma grande diversidade na compatibilização de itens não-verbais.

18Machado Vieira (2014, p. 99-101) aponta que construções com verbo suporte podem licenciar diferentes padrões construcionais de predicadores complexos (microconstruções), como:

(a) padrões construcionais envolvendo verbos que se situam numa categoria fronteiriça à de verbo predicador (uma espécie de verbo semi-suporte), uma vez que, em certa medida, têm aparência gramatical de verbo suporte (pois, operando sobre um elemento não-verbal, conferem-lhe estatuto verbal e com este formam unidades funcionais de predicação verbal com papel similar ao de um verbo pleno), porém não são tão rotineiramente empregados para a formação regular de exemplos de predicadores complexos; até (b) padrões construcionais envolvendo formas verbais produtivas em várias instâncias de uso com tal configuração, tais como são os verbos fazer, dar, ter e ficar, entre outros.

(b) padrões construcionais, que são oriundos de um processo regular/sistemático de compatibilização de formas nos slots da construção gramatical de predicação com verbo suporte (como revelam exemplos já expostos, faz negociação, fazer discussão, fazer atendimento) com algum grau de composicionalidade; até (b) padrões construcionais, que, ademais, passaram por um processo de construcionalização lexical (ou lexicalização, assim como abordado por ESTEVES, 2012, e OLIVEIRA, 2013), e, então, são menos ou não composicionais.

(c) pode licenciar padrões construcionais que envolvem a compatibilização de formas verbais e elementos não-verbais um pouco mais especificados que, nem por isso, se envolvem necessariamente num processo de construcionalização lexical, mas ainda advêm, em geral, da construção gramatical de predicação com verbo suporte. Só que, nas instanciações licenciadas por tais padrões, está em jogo uma funcionalidade diferente da de “predicar”: uma marcação de nuance aspectual (pouca ou não duratividade) ou uma marcação de atitude (inter)subjetiva frente ao estado de coisas conceptualizado (modalidade). Neste caso, considera- -se, em linhas gerais, que o conceptualizador pode conceber um estado de coisas com objetividade ou (inter)subjetividade: ou se apreendem os estados de coisas como se configuram “na realidade objetiva” ou se apreendem os estados de coisas com base na perspectivação de certos aspectos destes que pode representar apenas a atitude ou a avaliação subjetiva do enunciador ou, ainda, uma atenção ou preocupação deste com outro (o interlocutor, frequentemente).

IV. A produtividade – frequência type e token

19Na perspectiva construcionista da estabilidade, variação ou mudança linguística, ressaltamos os seguintes fatores: esquematicidade, produtividade e composicionalidade. O primeiro diz respeito ao escopo construcional (grau de generalidade ou especificidade das propriedades formais e funcionais da construção); o segundo, à vitalidade construcional, ou seja, com que frequência novas instâncias podem ser geradas por um esquema, e o terceiro faz referência ao grau de transparência entre forma e significado no nível da construção.

20Colocamos em evidência o fator da produtividade como um fenômeno gradiente (assim como a esquematicidade), o qual está ligado à questão da frequência, que é um fator altamente considerado desde o funcionalismo clássico (cf. BYBEE, 2010). Isso porque a produtividade fornece à abordagem construcional contribuições dos estudos em gramaticalização e lexicalização. Assim, a frequência tem papel fundamental na rotinização e cristalização de novos usos na língua.

21Traugott e Trousdale (2013, p.17) apontam que a produtividade pertence ao nível dos esquemas e diz respeito a sua extensibilidade. Desse modo, a produtividade de uma construção refere-se ao grau com que os esquemas sancionam outras construções menos esquemáticas e ao grau com que tais esquemas são restringidos (ROSÁRIO; OLIVEIRA, 2016).

22Em se tratando da produtividade nessa abordagem construcionista da gramática, a distinção entre frequência de tipo (type frequence) e frequência de ocorrência (token frequence) é fundamental. Os types são as unidades construcionais mais preenchidas, e os construtos, as formações são os tokens, ou seja, temos a frequência de construção e a frequência de construto, respectivamente. Barbosa (2020, p. 76) sintetiza a questão afirmando o seguinte: “a frequência type está associada à produtividade de uma construção, já a frequência token está associada ao número absoluto de construtos instanciados por uma construção”.

23De acordo com Oliveira (2013), a partir da análise do modelo proposto por Croft (2001) e Croft e Cruse (2004):

“A frequência type é considerada determinante para a fixação do nível de entrincheiramento das referidas dimensões enquanto esquemas, cabendo ao analista identificar e correlacionar as seis propriedades, de modo que, juntas e articuladas, sejam capazes de descrever a construção”. (p.152)

24Além disso, a autora aponta que a formulação desse modelo é com base no uso; assim, a virtualidade construcional é estabelecida na pesquisa pelos seguintes passos: coleta, descrição e análise de dados empíricos, pois é no momento da interação (que tem forte apoio na cognição e na experiência) que esses dados afetam e são afetados pelos modelos construcionais.

25No próximo capítulo, descrevemos nosso objeto de estudo, os padrões licenciados pela unidade construcional mais esquemática [bancar x], e muitas das questões aqui tratadas serão retomadas na análise dos dados.

V. Padrões licenciados por [bancar x] no português brasileiro

26É possível considerar que predicadores complexos com o verbo suporte bancar licenciam padrões construcionais que carregam significados específicos. Neste capítulo, veremos a natureza do verbo bancar como predicador simples e complexo; a possibilidade de existência de uma atitude inter(subjetiva) do falante em padrões construcionais com o verbo bancar como suporte; aspectos semelhantes ou diferentes nos sintagmas nominais acionados por esse verbo; a motivação da seleção desse verbo nas construções e o contexto de formalidade em que ele costuma estar presente a partir da observação das frequências type e token.

27Coletamos 100 dados com o verbo bancar nas redes sociais (facebook, twitter e instagram) e no Google Notícias. Ao pesquisar nesses meios ocorrências do verbo bancar, deparamo-nos com índices de maior ou menor frequência type desse verbo como pleno ou suporte. Os resultados (frequência token) estão organizados da seguinte maneira:

Frequência token das construções [bancar x] com verbo pleno

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Frequência token das construções [bancar x] com verbo suporte

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28Diante de tais resultados, podemos constatar que:

291. O contexto de uso é essencial para a identificação do verbo como pleno ou suporte.

Figuras 2 e 3

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30Nas figuras 2 e 3, não é possível observar apenas lendo as manchetes se se trata de verbo pleno ou de verbo suporte, uma vez que sem o contexto há uma ambiguidade, ou seja, o padre poderia ter bancado financeiramente o DJ como uma atitude de caridade ou poderia ele mesmo comportar-se como DJ (figura 2); em se tratando da figura 3, por envolver questões políticas, poder-se-ia entender que Moro financiou algum chefe de quadrilha ou ele mesmo foi o chefe.

31A ambiguidade é desfeita quando levamos em conta o corpo da notícia e descobrimos que, de fato, o verbo bancar comporta-se como verbo suporte, pois pelo contexto ambos os sujeitos indicam assumir outros papéis. No caso do padre, é dito que “... um padre, que também é DJ, entrou em cena e colocou os outros colegas sacerdotes pra dançar”. No caso de Moro, “... o Ministro da Justiça, Sérgio Moro, usa o cargo, aniquila a independência da Polícia Federal e ainda banca o chefe de quadrilha ao dizer que sabe das conversas de autoridades que não são investigadas”.

322. O verbo suporte bancar é de natureza transitiva, com tendência a sujeitos de traços [+ agentivos] e [+ humanos].

Figuras 4 e 5

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33Os termos que preenchem a posição de sujeito das construções com verbo suporte bancar tendem a ser [+ agentivos] e [+humanos] enquanto como verbo pleno há maior variação. Na figura 4, o sujeito “Neymar” possui um traço [+ humano], logo o verbo bancar é [+ agentivo]. Quanto ao traço de animacidade, na figura 5, embora o sujeito “Governo”, deve-se compreender a relação metonímica existente, pois por trás da esfera “governo”, existem “governantes [+ humanos]. O verbo, neste caso, também é [+ agentivo].

343. Os elementos não-verbais acionados para o slot de X indicam o falso, o mascarado, o contrário do que alguém é.

Figuras 6 e 7

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35É comum haver uma avaliação negativa do falante ao usar construções com o verbo suporte bancar para indicar a criação de personas. Isso significa que a função tende a ser negativa por parte de quem usa bancar como verbo suporte, justamente por acionar elementos não-verbais para seus slots que indicam o falso, implicando um jogo entre aparência e realidade.

36Assim, na figura 6, Scooby não seria um bom moço, mas o contrário disso, o que é evidenciado pela palavra “hipocrisia”. Na figura 7, há um jogo de palavras, ao utilizar a construção [V + SN] => [bancou o idiota] e [bancando o inteligente], que aponta para a tentativa de mascarar uma personalidade. Assim, o “inteligente” se passaria por “idiota” para ver o “idiota” se passando por “inteligente”.

37Além de mascarar uma característica/personalidade, também identificamos tais construções com predicadores complexos sendo usadas para a simulação de personas. A exemplo disso, temos o seguinte tweet falando sobre o apresentador do programa televisivo The Voice Kids Carlinhos Brown estar agindo como outro apresentador Pedro Bial:

Figura 8

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384. Esse verbo tende a selecionar para o slot de X sintagmas nominais – substantivos ou adjetivos –, os quais também são frequentemente encontrados com sufixos de grau.

Figuras 9 e 10

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39Esse verbo tende a selecionar sintagmas nominais que são frequentemente encontrados com sufixo de grau aumentativo, como “machão” ou diminutivo, como “certinha”. Assim, temos [bancou + SN], explorando o significado pejorativo que tanto o sufixo aumentativo -ão quanto tradicional diminutivo -inho podem veicular.

405. Bancar como verbo pleno está mais presente nas notícias e como verbo suporte é mais abundante nas redes sociais.

Figuras 11 e 12

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41A partir dos resultados obtidos em relação à frequência, constatamos 27 types no Google Notícias do verbo bancar como predicador pleno e 23 types nas redes sociais, o que revela um número consideravelmente equilibrado. Ao coletar o verbo bancar como suporte, houve uma discrepância nos resultados uma vez que foram encontrados 12 types no Google Notícias e 38 nas redes sociais.

42Isso confirma que, de fato, o verbo bancar como suporte é comumente associado a contextos e gêneros mais informais por destoar de sua função primária referencial. Contudo, é fundamental dar atenção aos 12% encontrados no Google Notícias, um resultado que consta que verbos suportes também são explorados, embora com menos frequência, em textos de cunho mais formal, como notícias, reportagens, revistas, artigos etc. quando o verbo não veicula seu significado primário (suporte financeiro), mas sim o significado de simulação/imitação.

Considerações finais

43Nossa proposta de investigação de construções com o verbo suporte bancar a partir de sua comparação com esse verbo como pleno sob a perspectiva construcional destinou-se a evidenciar que estruturas com verbo suporte não estão associadas somente à informalidade e oralidade, mas também estão presentes em diversos textos, desde os vinculados a gêneros mais formais a gêneros mais informais em maior ou menor medida. Além disso, vimos que o contexto é fundamental para a identificação de um verbo como pleno ou suporte bem como para captar atitudes (inter)subjetivas dos falantes sobre as construções.

44Com isso, a partir de um levantamento quali-quantitativo, identificamos os elementos que são cooptados nos slots de X, analisamos a natureza do verbo e esses elementos acionados. Ainda, buscamos comprovar que as construções analisadas são pares de forma-sentido que representam um fenômeno de ressignificação/ampliação de uso na língua e que, sobretudo, revelam alternância/variação.

45Da análise promovida, reconhecemos a relevância da Gramática de Construções com inclinação sociofuncionalista para estudos referentes à variação, essa normalmente chamada de Socioconstrucionista e defendida inicialmente no Brasil por Machado Vieira (2016) e Machado Vieira e Wiedemer (2019). Assim, tal abordagem nos permite a investigação de construções que vão se convencionalizando a partir dos usos linguísticos.

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Pour citer ce document

Jady Geovana Veroneses ALVES, «Predicadores complexos com o verbo suporte bancar: uma análise construcional», Reflexos [En ligne], N° 006, mis à jour le : 14/01/2023, URL : https://revues.univ-tlse2.fr:443/reflexos/index.php?id=919.

Quelques mots à propos de :  Jady Geovana Veroneses ALVES

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