Reflexos
Publication annuelle exclusivement en ligne hébergée sur le site des revues électroniques de l’Université Jean Jaurès, la revue Reflexos est un espace d’élaboration commun à distance, ouvert aux études lusophones.

N° 006

[Sommaire du numéro]

 

Jeane Nunes DA PENHA

Não se faz de difícil! / ¡No hagas el difícil! Vem conhecer uma análise diassistêmica!

Résumé

Dans cette recherche, nous comparons les prédications du portugais et de l’espagnol autorisées par une diaconstruction, puis nous cartographions les attributs de forme et de fonction des constructions composées de prédicats verbe-nom qui conceptualisent une sorte de simulation, de représentation et/ou de qualification. Ce faisant, nous schématisons le réseau de modèles constructifs qui autorisent l'utilisation de ces prédicateurs. Nous partons de l'hypothèse que la construction au plus haut niveau de catégorisation qui indique la représentation/qualification est une diaconstruction (cf. HÖDER, 2012 ; 2014 et 2018), car elle donnerait lieu à des modèles constructifs moins abstraits et à des usages observables en portugais et en espagnol. Nous présentons une analyse qualitative et quantitative de corpus recueillis par la collecte de données dans le gestionnaire de corpus Sketch Engine (https://www.sketchengine.eu/). Les résultats préliminaires montrent que la diaconstruction autorise différents types de construction dans les langues observées. En outre, les contextes dans lesquels ces constructions sont insérées peuvent traduire une simulation et/ou une qualification - une attitude (inter)subjective des locuteurs.

Abstract

In this investigation, we will compare Portuguese and Spanish predications authorized by a diaconstruction and, then, we will map attributes of form and function of the constructions constituted by verb-nominal predicates that conceptualize some type of simulation, representation and/or qualification. In this way, we will outline the network of constructional patterns that authorize uses of these predicates. We will begin with the hypothesis that the construction at the highest level of categorization, indicating representation/qualification, is a diaconstruction (cf. HÖDER, 2012; 2014 and 2018), as it would give rise to constructional patterns and observable uses in Portuguese and Spanish. We will present a quali-quantitative analysis of corpora gathered by collecting usage data in the Sketch Engine corpus manager (https://www.sketchengine.eu/). Preliminary results show that diaconstruction authorizes different constructional types in the languages ​​in focus. In addition, their constructs, depending on the contexts in which they are inserted, can translate a simulation and/or a qualification – an (inter)subjective attitude of the speakers.

Extracto

En esta investigación, comparamos predicaciones del portugués y del español licenciadas por una diaconstrucción y, luego, mapeamos atributos de forma y función de construcciones compuestas por predicadores verbo-nominales que conceptualizan algún tipo de simulación, representación y/o calificación. Con esto, delineamos la red de patrones constructivos que autorizan los usos de estos predicadores. Partimos de la hipótesis de que la construcción en el nivel más alto de la categorización que indica representación/cualificación es una diaconstrucción (cf. HÖDER, 2012; 2014 y 2018), ya que daría lugar a patrones construccionales menos abstractos y usos observables en portugués y español. Presentamos un análisis cuali-cuantitativo de corpora recopilados mediante la recolección de datos del uso en el administrador de corpus Sketch Engine (https://www.sketchengine.eu/). Los resultados preliminares muestran que la diaconstrucción licencia diferentes types construccionales en los lenguajes en foco. Además, sus constructos, dependiendo de los contextos en los que se insertan, pueden traducir una simulación y/o una calificación – una actitud (inter)subjetiva de los hablantes.

Resumo

Nesta investigação, comparamos predicações do português e do espanhol licenciadas por uma diaconstrução e, então, mapeamos atributos de forma e função de construções constituídas por predicadores verbo-nominais que conceptualizam algum tipo de simulação, representação e/ou qualificação. Com isso, esquematizamos a rede de padrões construcionais que licenciam usos desses predicadores. Partimos da hipótese de que a construção no nível mais alto da categorização que indica representação/qualificação é uma diaconstrução (cf. HÖDER, 2012; 2014 e 2018), pois daria margem a padrões construcionais menos abstratos e a usos observáveis no português e no espanhol. Apresentamos uma análise quali-quantitativa de corpora reunidos por meio de coleta de dados do uso no gerenciador de corpus Sketch Engine (https://www.sketchengine.eu/). Resultados preliminares evidenciam que a diaconstrução licencia diferentes types construcionais nas línguas em foco. Além disso, seus construtos, a depender dos contextos em que estão inseridos, podem traduzir uma simulação e/ou uma qualificação – uma atitude (inter)subjetiva dos falantes.

Texte intégral

1Test

I. Introdução

2Muitos são os esforços de investigadores construcionistas de mapear sistemas linguísticos no mundo todo. Tomando por base a concepção de que a língua é composta por construções, ou seja, pareamentos de forma e significação, eles buscam categorizar os esquemas, subesquemas e microconstruções, bem como delinear os links observáveis entre os padrões construcionais. Estudos mais recentes apontam para o caráter diassistêmico do conhecimento gramatical de construções, visto que determinados usos não seriam específicos de uma única língua. Nesse sentido, por meio desta investigação, objetivamos analisar predicações por meio de diaconstrução de representação/qualificação no português e no espanhol. Para tanto, partimos do esquema [[(participante1) (participante2) VERBO + (artigo/preposição) + ELEMENTO NOMINAL(adjetivo)-sufixo (participante3)]]predicador verbo-nominal]representação/qualificação, capaz de gerar types construcionais como: fazer(-se) de difícil, fazer o/a difícil, hacer(-se) de loc(o/a), hacer(-se) el/la loc(o/a). A título de exemplificação, seguem usos (1) e (2):

(1) Mas porquê que não falam à J?  Eu também posso começar a fazer-me de difícil
(disponível em https://elasticodacueca.blogs.sapo.pt/2007/06/?page=2 consultado em 07/09/2022.)

(2) Las grandes empresas de telecomunicaciones europeas son innovadoras y dan empleo a muchas personas, directa e indirectamente. Y tienen beneficios astronómicos, pero a la hora de invertir en mejoras tecnológicas que beneficien a la sociedad, por lo general se hacen los locos porque quieren seguir exprimiendonos con las vetustas tecnologías que nos dan ahora.
(disponível em http://www.jesusencinar.com/2010/11/sin-una-red-neutral-idealista-no-habria-nacido.html consultado em 07/09/2022.)

As grandes empresas de telecomunicações da Europa são inovadoras e empregam muitas pessoas, direta e indiretamente. E eles têm benefícios astronômicos, mas quando se trata de investir em melhorias tecnológicas que beneficiam a sociedade, eles geralmente se fazem de loucos porque querem continuar nos espremendo com as velhas tecnologias que eles nos dão agora. (tradução nossa)

3Com base nos exemplos, notamos que os padrões se prestam a perspectivar uma cena de representação ou a tentativa desta (cf. PENHA, 2021), assim como qualificar o comportamento de um determinado referente (cf. GOMES, 2021) – geralmente observado em contextos de críticas, como ocorre no exemplo (2), em que o falante emissor acusa determinado referente de fingir ser o que não é. Em outras palavras, o comportamento exibido pelo outro não convence. Em (1), o próprio falante emissor alega que poderá simular um novo comportamento – o de ser uma pessoa mais difícil.

4A partir de tais usos, apresentamos um estudo comparativo entre predicadores complexos de representação no português, constituídos com o verbo FAZER, e no espanhol, com o verbo HACER, em função do parentesco genealógico existente entre as línguas, uma vez que ambas são provenientes do latim (facĕre).

5As construções de representação/qualificação podem evidenciar diferentes tipos de fingimentos. Mostraremos apenas cinco em nossa análise, como demonstra o Quadro 1, que apresenta as compatibilizações entre verbo e nome (adjetivo) que culminam em cada tipo de representação explicitado:

Quadro 1: Tipos de encenações indicadas pelas construções de representação/qualificação.

Classificação

PORTUGUÊS

[fazer(-se) + ______caracterização]

ESPANHOL

[hacer(-se) + ______caracterização]

Pessoa com alguma perturbação psíquica

Louco, doido e maluco.

Loco, lunático e demente.

Pessoa que sofre com alguma situação

Vítima, coitado e desventurado.

Víctima, pobre e malaventurado;

Pessoa que não se seduz/convence facilmente

Difícil, misterioso e enigmático.

Difícil, misterioso e enigmático.

Pessoa que demonstra ingenuidade

Bobo, tonto e tolo.

Bobo, tonto e necio.

Pessoa que possui pouco conhecimento

Burro, ignorante e tapado.

Asno, ignorante e ajeno.

Fonte: Autoral.

6No tocante à análise dos diferentes usos licenciados pela diaconstrução de representação/qualificação, tencionamos responder aos seguintes questionamentos:

7(i) Que atributos os usos revelam com relação ao pareamento de forma e significação estocado na mente dos falantes do português e do espanhol para indicar determinados tipos de representação?;

8(ii) Qual é o tipo de representação que os usos mais indicam?

9(iii) Qual é a rede de padrões construcionais que licenciam os construtos das construções em análise? Quais os links entre eles?

10(iv) Qual seria o grau de convergência ou divergência entre os padrões do português e do espanhol?

11Este artigo está dividido da seguinte forma: após esta seção introdutória, apresentaremos o referencial teórico que embasou a investigação. Em seguida, mostraremos os passos metodológicos (constituição dos corpora, triagem, análise dos dados). Na seção seguinte, evidenciaremos os resultados obtidos, bem como a rede delineada a partir dos padrões encontrados no português e no espanhol. Depois, apresentamos as considerações finais e as referências citadas ao longo de todo o artigo.

II. Referencial teórico

1. Por que construções de representação/qualificação? O uso de verbo suporte na composição da construção

12A sociedade tem a necessidade de se adaptar aos diferentes tempos e espaços. Do mesmo modo, observamos a língua, que acompanha tais mudanças. Dada essa dinamicidade da língua, é possível apreendermos diferentes combinações e significados. O que influi na formação dos diferentes significados é a capacidade que os falantes têm de criar e entrincheirar novas construções. Ao criar novas construções, os falantes geram novos significados. Muitas vezes, novos significados são atribuídos a formas já existentes na língua que, por extensão de uso, acabam alcançando diferentes funções, como é o caso dos verbos FAZER do português e HACER do espanhol.

13É a partir do contexto de aplicação que conseguimos apreender e notar as diferentes funções exercidas pelos mesmos. Com relação ao uso do verbo FAZER do português, verificamos que este pode funcionar como um predicador pleno para indicar, em geral, a produção de algo, como em os professores preparam a prova do Enem. Quando compatibilizado a um elemento nominal, forma com este um predicador complexo com verbo suporte1, como por exemplo em o aluno fez uma pergunta ao professor. Predicadores complexos como esse podem apresentar distintos níveis de composicionalidade. O significado não depende da soma de cada constituinte, mas do todo: a expressão lexicalizada fazer vista grossa, por exemplo, é usada para sinalizar algo que um determinado referente finge não ver/notar; em a mulher faz uma mudança no visual, o predicador verbo-nominal é equivalente ao predicador pleno cognato mudar; em me faço de bobo ou João se fez de bobo, o predicador corresponde a uma construção que revela uma simulação/qualificação.

14O mesmo ocorre com o verbo HACER do espanhol: em certos contextos pode funcionar como um predicador pleno para indicar a produção de algo, como em hacer una pizza italiana. Se combinado a um elemento nominal num todo funcional, observamos a possibilidade de comportamento como um verbo suporte, como em hacer borrón y cuenta nueva, la policia hizo una investigación e María hizo la loca ou me hago la loca, que, de modo respectivo, indicam: uma expressão idiomática usada para sinalizar a ação de um dado referente de esquecer dívidas e erros e permanecer como se nada existisse; operador verbo-nominal equivalente ao predicador pleno investigar; construção que transmite uma ideia de simulação/qualificação.

15Estudos recentes trazem à luz as construções de representação/qualificação. Penha (2021) apresenta padrões com os verbos suportes dar, fazer, passar, posar e tirar (dar uma de vítima, fazer(-se) de vítima, passar(-se) por vítima, posar de vítima e tirar de vítima), mostrando ser possível relação de similaridade entre os usos em determinados contextos. Gomes (2021) ilustra padrões licenciados pela construção [V UMA DE X], como dar uma de esperto, pagar uma de doido, fazer uma de porteiro. Segundo a autora, os padrões indicariam um certo julgamento por parte do falante com relação a um referente, nesse caso, o falante emissor acusaria o referente de camuflar quem realmente é, fingir ser o que não é. Já Penha & Machado Vieira (2022) apontam para o caráter diassistêmico da língua. Dessa forma, as autoras apresentam idioconstruções do português e do espanhol (fazer(-se) de bobo, hacerse el bobo) licenciadas pela construção no nível mais alto da rede desenhada, isto é, a diaconstrução. As investigações revelam não apenas a produtividade dessas construções, mas também a importância de se trabalhar com dados reais do uso, uma vez que estes representam a realidade dos falantes.

2. Uma abordagem centrada no uso: a visão construcionista da linguagem

16Sob o olhar da abordagem funcional da linguagem, a língua é concebida como um instrumento de interação social; por isso, investigações de cunho funcionalista preocupam-se em analisar a relação entre as estruturas gramaticais das línguas humanas, bem como os diversos espaços interacionais em que estão inseridas. Com isso, lida, essencialmente, com dados reais de fala e/ou escrita retirados de ambientes autênticos de comunicação, descritos através de suas instâncias de uso, as quais podem apresentar influências de ordem pragmática, social e/ou cognitiva.

17Por investigar dados reais do uso, é importante reconhecer que a língua possui caráter heterogêneo, logo, está configurada com base nos fenômenos de estabilidade, variação e/ou mudança construcional. Além de ser fundamentada em processos sociointeracionais e culturais, a língua ainda se baseia em processos cognitivos de domínio geral, por isso, caracteriza-se segundo sua não arbitrariedade. Nesse sentido, é impossível dissociar o significante (signo linguístico) de seu significado (conteúdo); ademais, a linguagem é concebida como uma ferramenta de interação social e sua estrutura linguística não pode ser descrita de forma satisfatória sem levar em consideração o evento comunicativo. Assim sendo, é preciso estabelecer uma correlação entre a forma e o significado no contexto geral do discurso, isto é, a natureza e o propósito do evento da fala.

18Para além do exposto, prevemos que a língua consiste em um conjunto de construções hierárquicas que, interconectadas, compõem uma rede extensa, na qual verificamos relações verticais/taxonômicas (esquematização entre elementos mais abstratos e elementos concretos instanciados através da experiência de uso) e relações horizontais (entre construções no mesmo nível de abstração e, por conseguinte, com certo grau de similaridade funcional)2. As construções podem variar quanto a sua extensibilidade e complexidade e são formadas a partir de pareamentos convencionalizados e simbólicos entre forma (fonético-fonológica, segmental e suprassegmental, morfossintática e/ou lexical) e função (semântica, pragmática, discursiva, cognitiva e social), como notado na Imagem 1:

Imagem 1 – Atributos de forma e sentido da construção gramatical.

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Fonte: Gomes (2021, p. 31), adaptado de Croft (2001, p. 18).

19As construções gramaticais podem ser definidas com base nos parâmetros produtividade, composicionalidade, esquematicidade (TRAUGOTT & TROUSDALE, 2013) e contextualidade (GOLDBERG, 2006). A produtividade está relacionada com a extensão com que uma construção mais esquemática sanciona outras menos esquemáticas, ou seja, o surgimento de novos types (padrões) construcionais mais preenchidos e tokens (ocorrências com que um estímulo é encontrado e processado no ambiente). A composicionalidade diz respeito ao nível de (não)opacidade/transparência da ligação semântica entre os atributos de forma e significado dos componentes da construção. A esquematicidade, processo de categorização dos pareamentos forma e função, corresponde ao grau de generalização/abstração e/ou especificidade que as construções representam. Por fim, a contextualidade que diz respeito às condições de contexto que implicam na produção do sentido associado às construções.

20Com base na categorização das construções gramaticais, observamos diferentes graus de abstração: macroconstrução, nível mais alto, por isso o mais abstrato e com mais possibilidades de preenchimento nos slots aos quais se compatibilizam unidades linguísticas; mesoconstrução/subesquema construcional, no qual se observam similaridades e diferenças entre padrões diversos; microconstrução, que envolve as construções individuais com pouco ou sem slots a preencher; e o construto, em outras palavras, o uso manifestado em corpus sem nenhum grau de abstração, que, devido a seu caráter de sujeição aos fenômenos de inovação e criatividade, pode propiciar variação nos componentes do pareamento (forma e/ou função), acarretando processos de mudança construcional3.

21Os usos/construtos, por terem potencial inovador, constituem o lugar de variação, que pode ocorrer na forma e/ou no sentido e até acarretar uma mudança construcional. Machado Vieira & Wiedemer (2019 e 2020) defendem que a variação ocupa lugar central e/ou periférico a depender do perfil da investigação4. E, assim, a associação por similaridade pode ser percebida tanto no que diz respeito ao polo formal quanto ao polo funcional de uma construção gramatical.

22Na rede construcional ainda seria possível delinear estruturas convencionalizadas socialmente através do multilinguismo ou do multidialetalismo. Nesse sentido, Höder (2012; 2014 e 2018) defende uma abordagem construcional diassistêmica da língua, pois, seria possível interrelacionar duas línguas e/ou variedades de uma mesma língua com base em similaridades funcionais e/ou formais. Essa interconectividade linguística ocorre porque falantes, cujo conhecimento é multilíngue ou pelo menos multidialetal, seriam capazes de organizar seu conhecimento gramatical a partir da abstração e da categorização de elementos de diferentes idiomas/variedades em prol do entrincheiramento de uma gramática comum a mais de uma língua, ou nem linguística nem pragmaticamente especificada. A categorização interlinguística permite-nos, assim, chegar ao estabelecimento do que o autor classifica como diaconstruction (diaconstrução): generalização formal-funcional na base da interconexão de línguas e/ou variedades distintas, que apreende o que há em comum entre estas, ou seja, a diaconstrução, então, é capaz de captar padrões similares em sistemas linguísticos distintos. Tais padrões são denominados de idioconstructions (idioconstruções) e dizem respeito a variedades de uma língua ou mais línguas que possuem elementos comuns e são marcadas por um conjunto de fatores (socio)linguísticos, pragmático-discursivo:

Imagem 2 – Diaconstrução e idioconstruções.

Image 1000000000000139000000DF63ACCD60F752FCFB.png

Fonte: Höder (2018).

23De acordo com a Imagem 2, retirada de Höder (2018), conseguimos depreender diferentes estruturas idiossincráticas, cada uma com as especificidades que lhes são próprias. Contudo, seria possível verificarmos estruturas comuns mais gerais entre tais idiossincrasias – o que seria capturado pela diaconstrução.

24Assim como Höder (2012; 2014 e 2018), acreditamos, então, na possibilidade de desenhar uma rede de construções diassistemicamente configurada para projetar construções que indiquem algum tipo de representação/qualificação entre as línguas românicas, português e espanhol.

III. Metodologia

25Esta investigação de caráter quali-quantitativa dividiu-se em cinco etapas: (1) escolha da plataforma de coleta de dados; (2) preenchimento de planilha para análise colexêmica simples; (3) coleta de dados; (4) triagem dos dados; e (5) análise dos dados.

26A primeira etapa consistiu na escolha da plataforma de busca. Para este trabalho recorremos ao gerenciador de corpus Sketch Engine (disponível em https://www.sketchengine.eu/ consultado em 10/08/2022). Os corpora utilizados foram o Portuguese Web 2011 e o Spanish Web 2018. Em seguida, iniciamos um processo de busca para preenchimento da planilha no Excel (exposta na próxima seção) para a realização de uma análise de colocação de lexemas (cf. HILPERT, 2020), que consiste na verificação da força de atração das alternativas de preenchimento de um dado slot da construção. Acreditamos que o lexema mais atraído possa ser aquele que dita o significado da construção de representação, sendo, então, o item de categorização construcional. Nesse caso, como ilustra a Imagem 3, tencionamos responder à seguinte questão: quais nomes (adjetivos) são mais ou menos atraídos para o slot de representação/qualificação na estrutura em foco?

Imagem 3 - Análise de lexema simples.

Image 100000000000027C000000C5BB5FC92C3CD63932.png

Fonte: Autoral.

27Para responder à questão, consideramos quatro frequências:

281. O número total de palavras/construções que formam cada corpus;

292. A frequência de cada lexema no corpus;

303. A frequência de cada lexema no slot esquemático da construção de representação/qualificação;

314. A frequência da construção gramatical de representação/qualificação no corpus.

32A primeira frequência é possível encontrar no próprio Sketch Engine, como ilustrado na Imagem 4:

Imagem 4 - Número total de palavras no corpus Portuguese Web 2011 e Spanish Web 2018, respectivamente.

Image 1000000000000134000000B44992A46D45B9BFE5.pngImage 1000000000000130000000B6E29E852625D5B2B9.png

Fonte: Sketch Engine.

33Para encontrar a segunda frequência selecionamos um corpus por vez, clicamos na aba concordance > advanced e tipo de busca simple e digitamos o nome de cada um daqueles adjetivos expostos anteriormente no Quadro 1 e anotamos o número de hits totais em uma planilha de excel.

34A busca pela terceira frequência deu-se de maneira diferente: clicamos na aba concordance > advanced e tipo de busca CQL e digitamos o seguinte comando:

35[verbo] [ ] [lemma=“ignorante”]

36E assim fizemos para cada adjetivo. Por último, pensando na frequência da construção gramatical em cada corpus, digitamos o seguinte comando:

37[lemma=“fazer”] [ ] [lemma=“ignorante”]

38Para esta última, especificamos FAZER e HACER de acordo com o idioma selecionado, os colchetes vazios nos dão margem para pesquisar qualquer elemento que ocorra entre o verbo e o adjetivo. Aqui, nosso interesse era encontrar padrões com determinante (fazer a louca) ou preposição (fazer(-se) de louca). A imagem 5 demonstra bem esse processo:

Imagem 5 – Descobrindo a frequência da construção gramatical de representação/qualificação.

Image 100000000000034A00000180A6F0901002A96D6C.png

Fonte: Sketch Engine.

39Após descobrir e preencher a planilha com cada uma dessas frequências, iniciamos o processo de coleta dos dados. Consideramos os 100 primeiros resultados para cada padrão pesquisado chegando, então, a um total de 2.912 (dois mil novecentos e doze) dados. Posteriormente, realizamos uma triagem nos dados, chegando, então, a um total de 688 (seiscentos e oitenta e oito) dados. No Quadro 2 explicitamos exemplos de dados que, embora alinhados ao padrão [verbo + (_____) + adjetivo], após a triagem ficaram fora da nossa análise por não corresponderem ao esperado:

Quadro 2 – Dados descartados durante o processo de triagem.

FAZER(-SE)

HACER(-SE)

Estrutura com predicador pleno

(...) fazendo as vítimas aceitar o código moral segundo o qual vão sofrer as sevícias (...)

(…) aumentarán otro 10% si los contratos se hacen a víctimas de violencia de género (…)

Estrutura com predicador que indica comparação

(...) correndo feito um doido (...)

Estrutura com predicador (similar a causar) que indica quantidade

(...) já fez mais vítimas inocentes que deveria (...)

(…) en lugar de curar hacen más demente al demente (…)

Estrutura com predicador para indicar uma espécie de “ataque” a imagem do outro

(...) por favor não me faça parecer boba (...)

Fonte: Autoral.

40Por fim, analisamos um a um. Na análise consideramos três fatores motivadores:

411. Configuração formal dos padrões (verbo, adjetivo, determinante, preposição);

422. Os sentidos envolvidos no uso das construções em foco;

433. A perspectiva do fingimento, ou seja, vem do próprio falante emissor ou se refere a um falante alvo/receptor.

44Passamos agora para a explanação dos resultados.

IV. Resultados

45O primeiro passo da análise consistiu no exame da colocação dos lexemas (cf. HILPERT, 2020). Com isso, mapeamos estatisticamente a disposição dos nomes a partir do ponto de vista da construção gramatical. Verificamos a força de atração ou rechaço de cada adjetivo levado em consideração como alternativa de preenchimento do slot [Nome] da construção de representação/qualificação. As Tabelas 1 e 2 expressam os resultados:

Tabela 1 – Resultado da análise colexêmica simples realizada com os dados do Portuguese Web 2011.

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Fonte: Autoral.

Tabela 2 – Resultado da análise colexêmica simples realizada com os dados do Spanish Web 2018.

Image 100000000000041B000001A0AC25C32ABB77EB3B.png

Fonte: Autoral.

46Como observado, no corpus Portuguese Web 2011 os adjetivos desventurado e tapado são repelidos, pois, embora apareçam algumas vezes no corpus, na construção gramatical de representação/qualificação não são frequentes, ou seja, não estão em evidência como alternativas de preenchimento. O mesmo ocorre com o adjetivo malaventurado no corpus Spanish Web 2018.

47Com relação aos adjetivos atraídos, no Portuguese Web 2011, ainda que o adjetivo difícil seja aquele com a frequência mais esperada (135,74%), uma vez em que aparece 675.458 (seiscentos e setenta e cinco mil quatrocentos e cinquenta e oito) vezes no corpus, não é aquele que ocorre mais frequentemente dentro da construção (1.180). Como notado, vítima é a alternativa de preenchimento mais encontrada na construção, com 3.832 (três mil oitocentos e trinta e dois) ocorrências. Diferentemente, no Spanish Web 2018, difícil é a opção que mais ocupa o lugar de nome, com 47.748 (quarenta e sete mil setecentos e quarenta e oito) ocorrências dentro da construção gramatical, com a frequência mais esperada (625,63%), pois aparece 2.678.259 (dois milhões seiscentos e setenta e oito mil duzentos e cinquenta e nove) vezes. Logo, vemos uma primeira divergência entre o português e o espanhol, posto que, na primeira língua, há uma preferência maior pelo adjetivo vítima compatibilizado ao verbo para conceptualizar representação/qualificação e, na segunda, um favorecimento maior pelo adjetivo difícil.

48Cabe destacar que LogLikelihood representa o cálculo da força colostrucional, ou seja, é ele que nos diz o grau de atração.

49Como mencionado na seção metodológica, coletamos 2.912 dados para a análise qualitativa. Com a conclusão da triagem, chegamos ao total de 688 usos analisados, sendo 317 (trezentos e dezessete) oriundos do espanhol e 371 (trezentos e setenta e um) oriundos do português, como demonstra o Gráfico 1:

Gráfico 1 – Origem dos dados utilizados na análise.

Fonte: Autoral.

50No corpus Portuguese Web 2011 foi possível recuperarmos a variedade da língua na qual a ocorrência havia sido rastreada, por isso, verificamos que, dos 371 usos, 167 (cento e sessenta e sete) se referem à variedade brasileira do português, ao passo que 204 (duzentos e quatro) se ligam à variedade europeia. No Spanish Web 2018 não foi possível resgatarmos tal informação. O Gráfico 2 expressa a distribuição dos usos do português:

Gráfico 2 – Distribuição dos dados oriundos do corpus Portuguese Web 2011 utilizados na análise.

Fonte: Autoral.

51Os 371 dados retirados do Portuguese Web 2011 representam 16 types construcionais, sendo a construção fazer(-se) de coitado aquela com mais ocorrências (85 tokens). No que tange aos 317 dados do Spanish Web 2018, estes expressam 17 types construcionais, sendo hacer/hacerse la víctima a construção com mais ocorrências (71 tokens). A Tabela 3 ilustra as frequências type e token dos padrões analisados:

Tabela 3 – Frequências type e token das construções gramaticais de representação/qualificação.

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Fonte: Autoral.

52 Com relação à forma das estruturas em foco, observamos: (i) o tempo e modo verbal dos verbos, (ii) se havia artigo ou preposição entre o verbo e o adjetivo e (iii) a natureza dos adjetivos. Começaremos pelas construções do português. Na Tabela 4 apresentamos a distribuição dos tempos e modos verbais verificados nos dados:

Tabela 4 – Tempos e modos verbais do verbo FAZER.

Image 10000000000003A300000156861AB677F5D4992D.png

Fonte: Autoral.

53Como notado, o verbo pode flexionar-se em diferentes tempos e modos verbais. No Portuguese Web 2011, o infinitivo representa a forma verbal mais encontrada (101 dados/ 27%).

54No que diz respeito à presença de artigo ou preposição entre o verbo e o adjetivo, averiguamos que os falantes optam majoritariamente pelo uso da preposição de (368 usos). Ainda assim, verificamos 3 (três) usos de artigo, como demonstrado em (3):

(3) Não sei se seria preferível suprimir o resto da conversação; coisas bem ridículas lá foram ditas. Entretanto, vou relatá-las; não eram de todo ruins e se relacionam com o assunto. Havia na mesa um desses parasitas, cuja honra provém do ofício de fazer o louco
(disponível em http://www.dhnet.org.br/dados/livros/desejos/mundo/utopia.htm consultado em 07/09/2022.)

55 No que tange à natureza dos adjetivos compatibilizados ao verbo para indicar representação/qualificação, verificamos que estes podem ser biformes ou uniformes. A Tabela 5 demonstra tal divisão:

Tabela 5 – Natureza dos adjetivos compatibilizados ao verbo FAZER.

Image 10000000000003A3000000D5DFFB9016E8312CE5.png

Fonte: Autoral.

56Os adjetivos podem flexionar-se em número (singular e plural) e gênero (feminino e masculino). Os tipos mais analisados foram os adjetivos masculinos singular, que retratam 177 (cento e setenta e sete) usos. Alguns adjetivos, ainda, flexionam-se em grau (diminutivo), como observado em (4):

(4) Pensamento do dia: Hà quem se faça de maluquinho e hà quem ache graça e pague para ver uma outra pessoa fazer figura de parvo. 
(disponível em https://alfinetedepeito.blogs.sapo.pt/2005/11/ consultado em 07/07/2022.)

57Os usos em grau representam 86 (oitenta e seis) dados do corpus.

58Com relação às construções do espanhol, estas também apresentam o verbo HACER flexionado em diferentes tempos e modos verbais. Na Tabela 6 demonstramos tal disposição:

Tabela 6 – Tempos e modos verbais do verbo HACER.

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Fonte: Autoral.

59No Spanish Web 2018, o reflexivo representa a forma verbal mais encontrada (116 dados/ 37%). No que diz respeito à presença de artigo ou preposição entre o elemento verbal e o elemento nominal, verificamos que a maioria dos construtos apresentam artigo el/la. Contudo, encontramos 7 (sete) ocorrências da preposição de, como visto em (5):

(5) Recuerdo una anecdota que contaban en una entrevista que en un momento creo que Ingrid Rubio estaba haciendo de pobre (o de yonki, no recuerdo ahora) en la calle y se le acercó una mujer para darle un bocadillo pensando que era una chica de la calle realmente.
(disponível em https://www.rebeldemule.org/foro/filmoteca-ficcion/tema1605.html consultado em 07/09/2022.)

Lembro-me de uma anedota que contaram em uma entrevista que a certa altura eu acho que Ingrid Rubio estava se fazendo de pobre (ou drogada, não me lembro agora) na rua e uma mulher se aproximou dela para lhe dar um sanduíche pensando que ela era uma garota de a rua Realmente. (tradução nossa)

60 No tocante à natureza dos adjetivos compatibilizados ao verbo para indicar representação/qualificação, observamos que estes podem ser biformes ou uniformes. A Tabela 7 expressa esta distribuição:

Tabela 7 – Natureza dos adjetivos compatibilizados ao verbo HACER.

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Fonte: Autoral.

61Os adjetivos adjungidos ao verbo podem flexionar-se em número (singular e plural) e gênero (feminino e masculino). Os tipos mais verificados foram os adjetivos masculinos singular, que retratam 166 (cento e sessenta e seis) usos. Alguns adjetivos, ainda, flexionam-se em grau (diminutivo), como observado em (6):

(6) No, mski, si no es que me lo tome a mal, es que es la primera vez en mi vida que van a cortar un cacho de mi ser para arrancar otro de cuajo, que jamás me han dado ni un punto ni medio y lo más doloroso que me han hecho ha sido, probablemente, la cera, así que tengo miedo de verdad, no es por hacerme la pobrecita.
(disponível em http://www.cientoseis.es/index.php?PHPSESSID=074102f81bc845132ce4b06ec164b8e6&topic=18366.msg690173 consultado em 08/09/2022.) 

Não, mski, se não é que eu interpreto mal, é porque é a primeira vez na minha vida que vão cortar um pedaço do meu ser para arrancar outro, que nunca me deram um ponto ou meio e eu A coisa mais dolorosa que eles fizeram comigo provavelmente foi à cera, então eu estou realmente com medo, não é porque eu estou me fazendo de coitadinha. (tradução nossa)

62Os usos em grau representam apenas 4 (quatro) dados do corpus.

63A partir da análise observacional dos corpora, verificamos a perspectiva do fingimento, ou seja, se ele representa o olhar do próprio falante emissor sobre si ou se, na verdade, se trata de uma qualificação do falante emissor sobre um falante alvo/receptor. Desse modo, notamos que a representação pode partir tanto do falante emissor, (7) e (9), quanto de outro referente citado no discurso, (8) e (10) – este podendo estar mais próximo (como, por exemplo, em uma interação por mensagem síncrona) ou mais distante do falante emissor (quando em formato de crítica assíncrona a respeito do comportamento de alguém). Os exemplos de (7) a (10) corroboram esta percepção:

(7) Não me quero fazer de vítima, foi premeditado e é um luxo eu poder ter essa opção, o que significa que, bem ou mal, eu ainda consigo dedicar-me o suficiente para poder dar aulas e concertos que me permitam ter estes desvarios.
(disponível em
https://www.publico.pt/2010/03/03/culturaipsilon/noticia/filipe-e-o-destino-do-mundo-251898 consultado em 08/09/2022.)

(8) concordo se queres piratiar força, mas depois não tequeixes se tiveres consequencias com isso é que a malta primeiro "curte a grande" e depois quando são apanhados veem-se fazer de coitadinhos. por ter que comprar é que abdico de ms a fartazana, e dedico-me a linguagens/ideś livres que são muitoo bons.
(disponível em https://pplware.sapo.pt/software/microsoft-visual-studio-2010-final/ consultado em 08/09/2022.)

(9) Se me da fatal lo de hacerme la víctima, así que ni lo intento.
(disponível em
https://www.abretelibro.com/foro/viewtopic.php?f=47&p=4159613&sid=5f69593910d7967c89858e840b6cbe7b consultado em 08/09/2022.)

Sou terrível em me fazer de vítima, então nem tento. (tradução nossa)

(10) Respecto de "Plata quemada", que no es un mal relato, me circunscribo al modo en que Piglia difundió su imagen de autor, manipuló sus fuentes, se hizo el enigmático e interesante, para así dar una idea de sí como escritor pensante, resistente, huidizo y sumamente seductor.
(disponível em http://www.quadernsdigitals.net/index.php?accionMenu=secciones.VisualizaArticuloSeccionIU.visualiza&proyecto_id=2&articuloSeccion_id=3798&PHPSESSID=899af83815068cdda74a425cf3a7b22d consultado em 08/09/2022.)

Em relação a "Plata quemada", que não é uma história ruim, limito-me à forma como Piglia difundiu sua imagem de autor, manipulou suas fontes, fez-se enigmático e interessante, para dar uma ideia de si mesmo como escritor pensante, resistente, esquivo e extremamente sedutor. (tradução nossa)

64Em (7) e (9) verificamos que os padrões fazer de vítima e hacerme la víctima referem-se ao próprio falante emissor. A partir da análise dos contextos de uso, percebemos que o locutor não pretende simular um comportamento, já que não deseja ausentar-se de quaisquer responsabilidades que lhe foram atribuídas. Em contrapartida, em (8) e (10) as construções se fazer de coitadinhos e se hizo el enigmático e interessante – denotam julgamentos por parte do falante emissor a respeito da atitude/do comportamento dissimulado de determinados referentes.

65Na Tabela 8 apresentamos, em números, a perspectiva da representação/qualificação analisada nos construtos:

Tabela 8 – A perspectiva da representação/qualificação.

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Fonte: Autoral.

66Como observado, alguns usos indicaram que a representação partia tanto do falante emissor quanto do seu interlocutor. Nesses casos, as construções gramaticais em análise foram utilizadas em contextos nos quais notamos uma tentativa de aproximação do locutor com seu(s) interlocutor(es). Os usos em (11) e (12) exemplificam esta impressão:

(11) Se não concluirmos, com o que já "conhecemos" que em toda a Criação a EVOLUÇÃO e a LIBERDADE de EVOLUIR é a força motriz, a "grande idéia" desta Energia Criadora> teremos q nos fazer de burros pra conseguir acreditar em Deus. 
(disponível em https://www.saindodamatrix.com.br/mt/mt-comments.cgi?entry_id=1123 consultado em 07/09/2022.)

(12) Nos queremos hacer los ignorantes para justificar el daño que hacemos y así seguir con nuestras costumbres, que nada tienen de sanas y sostenibles. 
(disponível em https://dimequecomes.com/ consultado em 07/09/2022.)

Queremos nos fazer de ignorantes para justificar o estrago que fazemos e assim continuar com nossos costumes, que nada têm de saudável e sustentável. (tradução nossa)

67Além do contexto, elementos cotextuais também nos auxiliam nesta leitura. A aproximação no discurso do falante emissor com o falante alvo é marcada pelo uso do pronome pessoal oblíquo átono na 1ª pessoa do plural nos, bem como de verbos conjugados na 1ª pessoa do plural (conhecemos, teremos, queremos, hacemos). No exemplo do espanhol, ainda observamos o uso do pronome possessivo nuestras. Cada um destes elementos revela que o locutor não é diferente do seu interlocutor, sendo também uma pessoa capaz de fingir em circunstâncias cotidianas.

68Direcionadas a um referente, notamos que este é sempre animado, porém, em alguns casos, o classificamos como animado não-humano, uma vez que, são animados por se referirem à instituições que representam entidades animadas às quais, se faz realmente alusão e que movimentam, de alguma maneira, a imagem dessas instituições, mas são não-humanas, porque não expressam especificamente a um ser humano (cf. PENHA, 2021). Os dados (13) e (14) elucidam esta afirmação:

(13) Será que a FAB voando em uma altitude de vôo tão grande assim que não observou isso, ou se fez de boba.
(disponível em http://www.aereo.jor.br/2010/01/11/guerra-e-guerra/ consultado em 07/09/2022.) 

(14) Que el Parlament de Catalunya esté haciendo el burro y se sitúe en la máxima ilegalidad, no significa que no defienda los legítimos derechos de Catalunya.
(disponível em https://www.iniciados.com/dolca-catalunya-t14074-125.html?sid=60b9f10bc281fe4c7a775a30ca6b8153 consultado em 07/09/2022.)

Que o Parlamento da Catalunha está se fazendo de burro e esteja na ilegalidade máxima, não significa que não defenda os direitos legítimos da Catalunha. (tradução nossa)

69No exemplo (13) observamos que o falante emissor se direciona a Força Aérea Brasileira, FAB. Em (14), ao Parlamento da Catalunha. Ao se referir a estas entidades, o locutor faz uma generalização, em outras palavras, se direciona a todas as pessoas que compõem/ que trabalham nestas organizações qualificando, então, suas atitudes.

70Cabe ressaltar que, quando utilizadas em contextos de referência ao comportamento de um dado interlocutor próximo ou distante do momento da fala, as construções de representação/qualificação indicam, geralmente, críticas/julgamentos. Aqui, podemos dialogar com as noções de ethos e pathos utilizadas nas teorias de análise da argumentação. O ethos diz respeito à imagem que projetamos ou pretendemos projetar no outro, normalmente, por meio do nosso discurso, pela forma como nos portamos, gesticulamos, nos vestimos, etc. O pathos está relacionado ao sentimento que provocamos no outro, o qual nem sempre coincide necessariamente com o efeito que tencionávamos provocar a priori. Relacionando os usos das estruturas gramaticais em análise com os conceitos mencionados, vemos que um falante X objetiva por intermédio do seu comportamento convencer um falante Y de que as atitudes que demonstra o representam. Por sua vez, o falante Y qualifica, ou seja, julga a imagem do falante X mostrando que se trata, na realidade, de um fingimento. Em outras palavras, o falante Y acusa o falante X de fingir ser o que não é mostrando, então, que percebe a intencionalidade da simulação.

71Com base nos resultados expostos até aqui é possível apreendermos o que as construções de representação/qualificação demonstraram de semelhante e dissemelhante:

Diagrama 1 – Convergências e divergências entre os usos do português e do espanhol.

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Fonte: Autoral.

72O Diagrama 1 apresenta-nos as especificidades de cada língua: formalmente, no português, há uma preponderância do uso da preposição de entre o elemento verbal e o elemento nominal, o que não foi observado no espanhol, já que o uso de artigo el/la é o que predomina. Ainda com relação às diferenças, vemos que os adjetivos mais atraídos para categorizar a representação/qualificação não foram os mesmos. No português, verificamos que vítima é mais utilizado como possibilidade de preenchimento do slot [nome]. No espanhol, averiguamos que difícil é o adjetivo que mais ocupa a posição de [nome]. No meio, observamos todas as semelhanças – capturadas pela diaconstrução: verbo suporte flexionado em diferentes tempos e modos verbais; adjetivos podem ser tanto uniformes quanto biformes (podendo, ainda, apresentarem sufixos de gênero, número e grau); o fingimento pode partir do próprio falante emissor; os usos qualificam falantes alvo (julgamentos).

73Para finalizar, no Diagrama 2, delineamos a rede que representa os usos analisados nos corpora. Nela, vemos que a construção no nível mais alto de abstração expressa a diaconstrução de representação/qualificação. Esta licencia dados do português em diferentes variedades (brasileiro e europeu), assim como do espanhol5. Os dados, tanto no português quanto no espanhol, expressam usos com preposição e artigo. Esses usos apresentam similaridade funcional, uma vez que se prestam a configurar um fingimento.

Diagrama 2 – Esquematização dos usos encontrados nos corpora.

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Fonte: Autoral.

74Destacamos, ainda, que a diaconstrução pode licenciar não apenas usos no português e no espanhol, mas também em outras línguas românicas, como o italiano e o francês: fare la vittima, faire le fou. Ademais, como já mencionado na seção II, os verbos FAZER e HACER não são as únicas opções de compatibilização ao adjetivo para formar representação. No português, por exemplo, podemos encontrar types construcionais como dar uma de sonso, se passar por sonso, posar de sonso, bancar o sonso, pagar o sonso, entre outros.

V. Considerações finais

75Evidenciamos, por intermédio desta investigação, predicações que expressam algum tipo de representação/qualificação. Analisamos amostras de dados oriundos de dois corpora: Portuguese Web 2011 e Spanish Web 2019, a fim de confirmar a hipótese de que algumas construções têm, na realidade, representação como diaconstruções, por estarem na base de mais de uma língua românica. Assim, encerramos esta seção retomando as questões norteadoras, com suas respectivas respostas:

(i) Que atributos os usos revelam com relação ao pareamento de forma e significação estocado na mente dos falantes do português e do espanhol para indicar determinados tipos de representação?

76De modo geral, formalmente, os usos apresentam um elemento verbal (verbo suporte) compatibilizado a um elemento nominal de natureza adjetiva (uniforme ou biforme). Entre os dois elementos podemos encontrar artigo (mais frequente nos construtos do espanhol) ou preposição (mais usual nos usos do português). Funcionalmente, os usos revelam uma simulação ou a tentativa desta por parte do locutor ou um julgamento a respeito do comportamento de um falante alvo.

(ii) Qual é o tipo de representação que os usos mais indicam?

77Com base na análise de colocação, verificamos que, no português, o adjetivo mais atraído é vítima, que, adjungido ao verbo suporte, representa uma pessoa que finge sofrer com alguma situação. No espanhol, difícil apresentou-se como o adjetivo mais atraído. Operando sob a atuação do verbo suporte expressa uma pessoa que finge não se seduzir/convencer facilmente.

(iii) Qual é a rede de padrões construcionais que licenciam os construtos das construções em análise? Quais os links entre eles?

78A categorização dos padrões construcionais ajuda-nos a detectar a diaconstrução, ou seja, a construção no nível mais alto e, por isso, a mais abstrata, com mais possibilidades de preenchimento. A partir dela, tecemos, no diagrama 2, representação breve da rede de conexões entre os padrões construcionais mais acionados nas duas línguas postas em comparação. A diaconstrução detectada licencia usos no português e no espanhol – podendo, ainda, licenciar padrões construcionais em outras línguas românicas. As construções no mesmo nível da rede apresentam similaridade funcional e compartilham traços da construção no nível mais alto.

(iv) Qual seria o grau de convergência ou divergência entre os padrões do português e do espanhol?

79Com base no Diagrama 1, observamos que o grau de convergência entre os padrões é superior ao nível de divergência. Sua divergência é perceptível apenas em algumas características do polo formal de configuração ou preenchimento da construção.

80Para concluir, reforçamos a importância de se investigarem dados reais do uso, visto que estes expressam realidade de comunicação dos falantes e, por conseguinte, de exploração do repertório linguístico. Esperamos que esta investigação contribua para o arcabouço das pesquisas na linha da Gramática de Construções, principalmente, aquelas cujo foco está centrado na diassistematicidade da língua. E, em termos de espaços de trabalho com língua românica, para as descrições de predicação.

Bibliographie

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Notes

1 Definição dada a usos de formas verbais que operam sobre um elemento nominal (adjetivo ou substantivo), formando com este uma unidade funcional predicante (cf. MACHADO VIEIRA, 2018).

2 As relações entre as construções podem dar-se por meio de links relacionais e links de herança: Goldberg (1995) propõe quatro tipos de links relacionais: (i) por polissemia, que diz respeito às relações semânticas entre uma construção de sentido prototípico e outras como extensão desta; (ii) por subparte, relação entre uma ou mais construções e outra maior que exista independentemente e da qual ela(s) possa(m) fazer parte; (iii) por extensão metafórica, que envolvem processos de domínio cognitivo e dizem respeito ao grau com que uma ou mais construções gramaticais são uma extensão metafórica de outra; e (iv) por instanciação, que ocorre quando uma ou mais construções são um “caso especial” de outra construção. No que tange aos links de herança, estes representam às relações taxonômicas, nas quais cada construção gramatical representa um “nó” na rede (CROFT, 2001, p. 25). As construções no nível mais baixo da rede herdam características das construções que estão no nível mais alto da rede.

3 Segundo Traugott & Trousdale (2013) há dois tipos de mudança: (i) a mudança construcional, que pode afetar a construção no nível da forma ou no nível do sentido sem que essa alteração, necessariamente, resulte na criação de uma nova construção na língua, isto é, um novo nó na rede de construções; e (ii) a construcionalização, que diz respeito à criação de uma nova combinação entre forma e função, gerando, então, um novo nó na rede construcional.

4 Os autores descrevem três tipos de variação: (i) variação por similaridade - as variantes construcionais são caracterizadas como allostructions (cf. CAPPELLE, 2006), ou seja, estruturas em alternância formalmente divergentes, mas funcionalmente iguais de uma construção mais esquemática, denominada constructeme (metaconstrução), responsável por capturar as semelhanças e diferenças entre as aloconstruções, uma vez que representa um espaço em que tem lugar neutralização de unidades construcionais independentes; (ii) variação por semelhança simbólica - relacionada com a atuação cognitiva do falante para produzir analogias, processo no qual instâncias novas/inovadoras são criadas a partir de outras já existentes na língua (cf. BYBEE, 2015); e (iii) variação por paradigma discursivo - ligada ao cenário cognitivo-discursivo (domínio discursivo, temática conceptualizada, ato de fala, gênero textual). Todos esses elementos envolvem também conhecimento sócio-culturalmente definido e cognitivamente entrincheirado. Neste tipo de variação determinadas construções são acionadas/licenciadas por conta de condições relacionadas a determinados contextos/padrões discursivos – ou frame (cf. FILLMORE, 1982).

5 Como descrito na seção de metodologia, diferentemente do corpus do português, no espanhol não foi possível resgatar a variedade da qual os dados eram oriundos. Contudo, sabemos que, assim como o português, o espanhol não é uma língua homogênea, pois apresenta diversas variedades não só na América, mas também na Europa. Por isso, acreditamos que o corpus não represente somente uma variedade, mas muitas.

Pour citer ce document

Jeane Nunes DA PENHA, «Não se faz de difícil! / ¡No hagas el difícil! Vem conhecer uma análise diassistêmica!», Reflexos [En ligne], N° 006, mis à jour le : 14/01/2023, URL : https://revues.univ-tlse2.fr:443/reflexos/index.php?id=942.

Quelques mots à propos de :  Jeane Nunes DA PENHA

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