Reflexos
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N° 004 - Enseigner le portugais comme langue étrangère dans le monde – Bilans, enjeux et perspectives

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Vanessa Meireles

O ensino universitário da língua portuguesa na França: breve panorama e desafios

Résumé

Esse texto tem o objetivo de fornecer uma descrição do panorama do ensino de português em universidades francesas, seus desafios e perspectivas de evolução. Após uma breve apresentação sobre o funcionamento do sistema de ensino universitário francês no quadro europeu e suas especificidades, faremos um balanço crítico sobre a oferta atual de formação em língua portuguesa nesse contexto, remetendo-nos aos cursos de graduação. Abordaremos as problemáticas em torno do número de inscritos no sistema superior francês e o trabalho de ensino e pesquisa realizado na área, este último fundamental para a dinâmica e manutenção do ensino de português na França.1

Texte intégral

Observações sobre o sistema de ensino universitário francês: o caso do português2

1Desde 2002, o conjunto das universidades francesas adotou progressivamente o sistema chamado LMD (Licenciatura; Mestrado; Doutorado – Licence ; Master ; Doctorat), no âmbito do processo de harmonização europeia dos estudos do ensino superior. Na arquitetura desse sistema LMD, a oferta de formação é organizada em domínios, como por exemplo Letras, Ciências Humanas e Sociais, Direito, etc. Estes domínios, por sua vez, são divididos em “menções” e especialidades. A título de exemplo, pode-se cursar uma Licenciatura em Letras, com menção em Línguas, Literaturas e Civilizações Estrangeiras (Langues, Littératures et Civilisations Etrangères - LLCE3), com especialização em português; ou uma Licenciatura em Letras, com menção em Línguas Estrangeiras Aplicadas (Langues Etrangères Appliquées - LEA), tendo como especialidade a língua portuguesa, frequentemente associada a outra língua como o inglês ou o espanhol.

2Tem-se observado, nos últimos anos, uma diminuição no número de inscritos na menção LLCE com especialização em português, mais voltada para o ensino e a pesquisa, e um aumento na menção LEA de uma maneira geral (como em outras línguas), considerada como profissionalizante.

3Face à diversidade das ofertas universitárias nesse sistema de ensino, e às restrições orçamentárias generalizadas nas universidades, poderíamos imaginar o pior para a situação do ensino do português no país. Mas, apesar dos desafios, o português continua a existir, adaptando-se ao novo contexto.

4Baseando-nos nos dados de documentos disponibilizados nos sites das próprias universidades e pelo Portal da Cooperação Educacional Franco-brasileira4, podemos reter o seguinte sobre o ensino de português a nível superior na França: há uma longa história, pois o português foi introduzido na Universidade de Paris em 1919 (seguido de outras cidades: Rennes em 1921, Toulouse em 1931, Bordeaux em 1932, Montpellier e Poitiers em 1934, Aix em 1950, Lyon, Nantes, Grenoble em 1958, etc.). Se fizermos um balanço sobre o ensino do português em contexto universitário entre 2000 e 2013, observamos um aumento da oferta dessa língua em universidades de uma maneira geral.

5Assim, segundo um balanço feito por Quint (1994), haveria 38 universidades onde o português é ensinado. Segundo este balanço, até aquele ano, em 11 universidades o português era uma disciplina principal (dita “majeure”), com diplomas nacionais de LLCE e de LEA, na Licenciatura, Mestrado e Doutorado.

6Quase vinte anos depois, segundo Kleiman (2013), ao menos 42 universidades oferecem o ensino de português: destas, 16 estão habilitadas à formação em licenciatura, 14 oferecem uma formação em mestrado ou fazem parte de um mestrado interdisciplinar, e 10 delas intervêm ao nível do doutorado. Vale ressaltar que até 2018 ocorreram evidentemente algumas mudanças. Entre elas, parece-nos pertinente mencionar uma mudança positiva: a criação em 2016 de um departamento de língua portuguesa na Universidade Jean Moulin (Lyon 3), oferecendo formação a nível de licenciatura em LEA. É importante ressaltar, entretanto, que na maior parte das universidades que oferecem o português, essa língua tem um status de ensino complementar ou opcional.

7 Além disso, em muitas universidades, em especial as que não oferecem um diploma nacional de português (sistema LMD), são oferecidos cursos de língua portuguesa ou de cultura lusófona (da iniciação ao nível avançado). É importante notar que as aulas de cultura ou literatura podem ser efetuadas em português ou em francês.

8Outra modalidade de ensino universitário francês é o Diploma Universitário (Diplôme Universitaire - DU), que é um diploma organizado pela própria universidade, e não entra no sistema LMD (organizado pelo ministério da educação a nível nacional). No caso do DU de português, trata-se de uma formação em língua e cultura portuguesa/brasileira mais curta e compacta que a licenciatura. A título de exemplo, o DU em português do Brasil oferecido pela Universidade Paul Valéry (Montpellier 3) tem a duração de um ano letivo. Em geral, esta formação atrai não somente um público de estudantes, mas também um público que deseja se projetar em diversos horizontes profissionais para os quais o domínio da língua portuguesa é necessário ou representa um diferencial no mercado de trabalho.

9Ainda no que se refere ao ensino de português em universidades, pensamos ser pertinente citar o caso de formações que preparam candidatos nas universidades para concursos públicos visando integrar o ensino médio ou universitário como professores. Nessa modalidade, existem duas formações voltadas para a preparação de dois concursos públicos: o primeiro, intitulado Certificat d’Aptitude au Professorat de l’Enseignement du Second degré (Certificado de Aptidão ao Professorado do ensino de Segundo Grau - CAPES); e o segundo, a Agrégation, nível que abrange as classes de ensino médio e superior. Estes concursos correspondem, grosso modo, ao status de professores públicos concursados no Brasil. Foram criados respectivamente em 1970 e 1973.

10No entanto, atualmente poucas universidades oferecem uma preparação para esses concursos. Nos anos 90, indicava-se uma diminuição de 50% do número de inscritos nesses concursos, em virtude do baixo número de vagas abertas. Já em 2016, segundo o relatório do concurso CAPES5, houve um número elevado de inscrições (119 inscritos). No entanto, somente 52 candidatos se apresentaram para a primeira fase do concurso, e desses candidatos apenas 8 passaram para a segunda fase para preencherem as 4 vagas oferecidas naquele ano. Em 2017, houve 127 inscritos, mas somente 50 candidatos se apresentaram na primeira fase, talvez devido ao baixo número de vagas oferecidas: apenas 5. Ainda que o número de vagas seja baixo, com apenas uma vaga e oito candidatos inscritos a mais em comparação ao concurso anterior, esse leve aumento contraria à tendência de diminuição de ambos nos anos 90 e início dos anos 2000.

11Contudo, a situação parece mais preocupante com a Agrégation. Este concurso divide-se em duas categorias: o concurso interno e externo. Esses concursos não acontecem todos os anos nem de maneira regular. A situação é ainda mais delicada em relação à Agrégation externe: segundo relatório do concurso de 20156, havia 71 candidatos para 2 vagas. Em 2016, havia 33 candidatos inscritos na Agrégation interne. Apenas 15 candidatos participaram efetivamente da primeira etapa do concurso, e apenas 1 vaga foi preenchida.

12A irregularidade dos concursos para professores de português (CAPES e Agrégation), a raridade das vagas oferecidas aliadas à quase inexistência de uma preparação para esses concursos podem ser apontadas, a nosso ver, como causas diretas para o fraco desenvolvimento da própria oferta de ensino de português nas escolas e universidades. Na afirmação abaixo, Marques-Maubourg (2009: 89) explica a complexa interrelação de fatores que envolvem o ensino e a difusão da língua portuguesa na França, fatores que dizem respeito à formação de alunos e professores às perspectivas profissionais de ambos:

A questão da difusão da língua portuguesa no ensino superior francês está intimamente ligada não somente à importância do ensino dessa língua nos ensinos anteriores ao universitário, mas às expectativas financeiras que ela pode oferecer no mercado de trabalho. O número de vagas atribuídas aos docentes de Português e das disciplinas literárias de língua portuguesa, no ensino superior francês, corresponde: a) à importância desta língua para a sociedade, em termos estritos e em termos mercadológicos; b) à demanda prática e acadêmica relativa à inscrição dos alunos em licenciatura; e, finalmente, c) à “legitimidade”, a longo prazo, dos estudos de cultura e literaturas de língua portuguesa no campo das Humanidades. Todos esses fatores são intimamente relacionados entre si. O aluno (francófono ou lusófono) que se interessa pelos estudos ligados à cultura dos países de língua portuguesa vê seu campo profissional restrito. O turismo, ou, num nível mais exigente, a tradução ou o ensino público do PLE são, a princípio, suas únicas escolhas quanto ao mercado de trabalho.

13Em algumas universidades, em virtude do baixo número de alunos na filial LLCE, mais “literária”, algumas aulas são feitas em comum com as da filial LEA. Em outras universidades, a filial LLCE foi simplesmente fechada.

14Por outro lado, a obrigação de diversas licenciaturas francesas em várias áreas de cursar ao menos uma língua estrangeira durante a formação contribui para aumentar o número de alunos não especialistas. Infelizmente, o número de efetivos do português como opção não é contabilizado pelo Ministério da Educação. Isto é lamentável, quando sabemos o quanto algumas universidades carecem de meios para assegurar esse ensino. Em algumas universidades, o ensino de português existe mesmo se não há um departamento de português (como é o caso da Universidade de Rouen, por exemplo). O trabalho de leitores de Portugal e do Brasil e outros professores com cargos temporários é fundamental para assegurar essa demanda de ensino para não especialistas, estudantes de diversos horizontes e com objetivos diversos.

15Vê-se também a importância das relações entre universidades francesas entre elas e com universidades portuguesas e brasileiras para o desenvolvimento do ensino do português no país. Os Centros de língua portuguesa criados pelo Instituto Camões7 em algumas universidades (Lille III, Lyon II, Poitiers), e a criação de 2 cátedras de português (Cátedra Luís Filipe Lindley Cintra na Universidade de Nanterre, e Cátedra Sá de Miranda na Universidade Blaise Pascal, em Clermont Ferrand), são também um apoio ao ensino e à pesquisa.

A pesquisa sobre a língua portuguesa, a cultura e a literatura lusófonas

16As estruturas existentes para pesquisa nas universidades francesas relacionadas com a língua portuguesa, a cultura e a literatura lusófonas são geralmente equipes de pesquisa que trabalham na organização de colóquios e publicações, permitindo aos professores pesquisadores de português encontrar uma expressão e uma colaboração científica. Em muitos casos, os pesquisadores de língua, cultura e civilização de língua portuguesa pertencem a equipes de hispanistas ou romanistas8. Os centros e equipes de pesquisa criados ao longo dos anos também acolhem alunos de Mestrado e Doutorado.

17Segundo levantamento, há apenas dois centros de especialidade lusófona, sendo eles:

18- o CREPAL (Centre de Recherches sur les Pays Lusophones, Centro de Pesquisas sobre os Países Lusófonos), ligado à Universidade Sorbonne Nouvelle em Paris;

19- o CRILUS (Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Lusophone, Centro de Pesquisas Interdisciplinares sobre o Mundo Lusófono), ligado à Universidade de Nanterre.

20Há também um centro de pesquisa que conjuga estudos lusófonos e francófonos:

21- o GIRLUFI (Groupe Interuniversitaire de Recherches Luso-Françaises sur l’Imaginaire, Grupo Interuniversitário de Pesquisas Luso-Francesas sobre o Imaginário), ligado à Universidade de Bordeaux.

22Quanto às publicações de pesquisas, atualmente existem apenas 3 revistas científicas consagradas aos estudos lusófonos:

23- Les Cahiers du CREPAL (Cadernos do CREPAL), ligada ao grupo de pesquisa de mesmo nome da Universidade Sorbonne Nouvelle,

24- a Revista Plural Pluriel, ligada à equipe GIRLUFI, da Universidade de Nanterre,

25- a Revista Reflexos, ligada à equipe CEIIBA, da Universidade de Toulouse.

26Até recentemente, havia uma quarta revista intitulada Quadrant, organizada por professores pesquisadores da Universidade de Montpellier 3, mas que infelizmente não existe mais.

27Observando o catálogo de teses defendidas em literatura e linguística na França até 2017 sobre o Brasil9, por exemplo, vê-se que em geral, a maior parte das teses se têm concentrado nos estudos literários e culturais. Pouquíssimos estudos têm sido efetuados em relação a metodologias de ensino e aprendizagem da língua. Como exemplo de trabalho realizado na área, podemos citar a tese defendida pela professora Ingrid Peruchi (2010). Esse panorama mostra claramente que há muito ainda para ser feito e a ser desenvolvido pela disciplina no campo da pesquisa, que, além do interesse científico, acreditamos ser um caminho para dinamizar e fornecer a reflexão e o material de qualidade para o ensino da língua portuguesa a todos os níveis.

Considerações finais

28Os diplomas nacionais ou universitários, a preparação aos concursos e os centros e equipes de pesquisa garantem a base institucional da língua portuguesa na universidade francesa, ainda que fragilizada por problemas de política linguística, de limitação de orçamento e a redução de vagas oferecidas nos concursos públicos.

29A inserção profissional para os estudantes que querem se tornar professores nessa área, seja a nível universitário ou do ensino médio é um problema claro. Isso repercute na fraca procura dos estudantes por essas filiais, numa espécie de círculo vicioso.

30Entretanto, nas universidades onde o português é ensinado, vê-se o trabalho empenhado dos professores e pesquisadores de português nessas condições, sempre procurando valorizar o ensino dessa língua em suas universidades. Para concluir, gostaríamos de citar uma reflexão de Carreira (2005), professora já aposentada da Universidade de Paris 8, que para nós resume o contexto de ensino descrito aqui assim como a melhor maneira de contornar os seus percalços: “a nível universitário, é essencial que a pesquisa alimente o ensino e vice-versa. É pela qualidade do ensino e da pesquisa, associada à determinação de cada um de nós, que o português no ensino superior deve reforçar suas bases e difusão”.

Bibliographie

Carreira, Maria Helena Araújo. “L’enseignement du Portugais en France: la situation de l’enseignement supérieur”. Actes du Colloque Arara La Langue Portugaise, le Brésil, la Lusophonie, La Mondialisation Linguistique, 2005, p. 1-4.

Kleiman, Olinda. “Situation actuelle de l’enseignement du portugais dans l’université française”. In Christian LAGARDE et Philippe RABATÉ (éds.), Transversalité et visibilité disciplinaires : les nouveaux défis de l’hispanisme, HispanismeS, n° 2 (juin 2013).

Marques-Rambourg, Márcia. Português língua estrangeira (PLE): Por uma reflexão sobre o ensino do português na França”. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Difusão da língua portuguesa, no 39, 2009, 79-94.

Peruchi, Ingrid. Entre migration et plurilinguisme : la place du Brésil et de sa culture dans l’enseignement du portugais en France (1973-1998). Thèse de Doctorat. Paris : Université Paris Ouest Nanterre La Défense/Campinas : Universidade Estadual de Campinas, 2010.

Quint, Anne-Marie. « La langue portugaise dans l’enseignement supérieur français ». Actes du colloque Les Images réciproques France-Portugal, organisé à l’Assemblée Nationale par l’ADEBPA, 21, 22, 23 mai 1992. Paris, ADEPBA, 1994, p. 389-392.

Notes

1 Parte das informações aqui reunidas foram apresentadas oralmente no congresso da SIPLE (Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira) em 2017 em Lisboa, Portugal, em coautoria com Alexandre Ferreira Martins, leitor na Universidade de Montpellier 3.

2 Não faremos aqui distinção entre Português Língua Estrangeira (PLE), Português Língua Adicional (PLA), Português Língua de Herança (PLH) ou outras variantes por consideramos que não será pertinente para o objetivo de fornecer apenas um panorama geral.

3 Ou, em algumas universidades, Línguas, Literaturas e Civilizações Estrangeiras e Regionais (Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales – LLCER)

4 Cf. http://educ-br.fr/ensino-de-portugues/instituicoes-de-ensino/.

5 Cf. o relatório disponível em http://media.devenirenseignant.gouv.fr/file/externe/45/0/Rj-2016-CAPES-Externe-Portugais_625450.pdf.

6 Cf. o relatório disponível em http://cache.media.education.gouv.fr/file/agreg_ext/73/6/portugais_456736.pdf.

7 Cf. http://www.epefrance.org/menu/aprender-portugues-em-franca/.

8 Cf. a lista no site http://www.hispanistes.org/images/PDF/20170601_Annuaire.pdf.

9 Cf. a lista no site http://crbc.ehess.fr//index.php?/ressources/catalogue-des-theses/1100-catalogue-des-theses-en-ligne-soutenues-en-france-sur-le-bresil-en-sciences-sociales-et-humaines-de-1823-a-nos-jours.

Pour citer ce document

Vanessa Meireles, «O ensino universitário da língua portuguesa na França: breve panorama e desafios», Reflexos [En ligne], N° 004, Enseigner le portugais comme langue étrangère dans le monde – Bilans, enjeux et perspectives, mis à jour le : 13/05/2019, URL : http://revues.univ-tlse2.fr/reflexos/index.php?id=590.

Quelques mots à propos de :  Vanessa Meireles

Université Paul Valéry – Montpellier 3

Maîtresse de conférences

vanessa.meireles@univ-montp3.fr